segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Colonia Portuguesa

O interesse pelo Oriente - A armada de Pedro Álvares Cabral, em verdade, dirigia-se às "Índias" mas, seja acaso, tormentas, calmarias ou por propósito (o mais provável) chegou ao Brasil em 1500. Apesar de ter tomado posse da terra em nome do rei de Portugal, o principal interesse da monarquia, enfatize-se estava voltado para o Oriente, onde estavam as tão cobiçadas especiarias.
O "Achamento"
A Carta de Pero Vaz de Caminha fala em "achamento" destas terras, não fala em "descobrimento" ou "casualidade". Tudo indica que, realmente, procuravam alguma terra, e a acabaram "achando"... O relato abaixo permite-nos uma idéia de como aconteceu este "achamento" segundo relatos de marujos da esquadra cabralina.
Na terça-feira à tarde, foram os grandes emaranhados de "ervas compridas a que os mareantes dão o nome de rabo-de-asno". Surgiram flutuando ao lado das naus e sumiram no horizonte. Na quarta-feira pela manhã, o vôo dos fura-buchos - uma espécie de gaivota - rompeu o silêncio dos mares e dos céus, reafirmando a certeza de que a terra se encontrava próxima. Ao entardecer, silhueta­dos contra o fulgor do crepúsculo, delinearam-se os contornos arredondados de "um grande monte", cercado por terras planas, vestidas de um arvoredo denso e majestoso.
Era 22 de abril ale 1500. Depois de 44 dias de viagem, a frota de Pedro Álvares Cabral vislumbrava terra - mais com alívio e prazer do que com surpresa ou espanto. Nos nove dias seguintes, nas enseadas generosas rio sul da Bahia, os 13 navios da maior amada já enviada às índias pela rota descoberta por Vasco da Gama permaneceriam reconhecendo a nova terra e seus habitantes.
O primeiro contato, amistoso como os demais, deu-se já no dia seguinte, quinta-feira, 23 de abril. O capitão Nicolau Coelho, veterano das Índias e companheiro de Gama, foi a terra, em um batel, e deparou com 18 homens "pardos, nus, com arcos e setas nas mãos". Coelho deu-lhes um gorro vermelho, uma carapuça de linho e um sombreiro preto. Em troca, recebeu um cocar de plumas e um colar de contas brancas. O Brasil, batizado Ilha de Vera Cruz, entrava, naquele instante, no curso da História.
O descobrimento oficial do país está registrado com minúcia. Poucas são as nações que possuem uma "certidão de nascimento" tão precisa e fluente quanto a carta que Pero Vaz de Caminha enviou ao rei de Portugal, dom Manuel, relatando o "achamento" da nova terra. Ainda assim, uma dúvida paira sobre o amplo desvio de rota que conduziu a armada de Cabral muito mais para oeste do que o necessário para chegar à Índia. Teria sido o descobrimento do Brasil um mero acaso?
É provável que a questão jamais venha a ser esclarecida. No entanto, a assinaturas do Tratado de Tordesilhas, que, seis anos antes, dera si Portugal a posse das terras que ficassem a 370 léguas (em torno de 2.000 quilômetros) a oeste de Cabo Verde explique a naturalidade com que a nova terra foi avistada, o conhecimento preciso das correntes e das rotas, as condições climáticas durante a viagem e a alta probabilidade de que o país já tivesse sido avistado anteriormente parecem ser a garantia de que o desembarque, naquela manhã de abril de 1500, foi mera formalidade: Cabral poderia estar apenas tomando posse de uma terra que os portugueses já conheciam, embora superficialmente. Uma terra pela qual ainda demorariam cerca de meio século para se interessarem de fato.
Os Tupiniquins
Ao longo dos dez dias que passou no Brasil, a armada de Cabral tomou contato com cerca de 500 nativos.
Eram, se saberia depois, tupiniquins - uma das tribos do grupo tupi-guarani que, no início do século 16, ocupava quase todo o litoral do Brasil. Os tupis-guaranis tinham chegado à região numa série de migrações de fundo religioso (em busca da "Terra sem Males", no começo da Era Cristã. Os tupiniquins viriam no sul da Bahia e nas cercanias de Santos e Bertioga, em São Paulo. Eram uns 85 mil. Por volta de 1530, uniram-se aos portugueses na guerra contra os tupinambás-tamoios, aliados dos franceses. Foi uma aliança inútil: em 1570 já estavam praticamente extintos, massacrados par Mem de Sá, terceiro governador-geral do Brasil.
Primeiras Expedições
O Brasil, ao contrario do Oriente, não possuía, em princípio, nenhum atrativo do ponto de vista comercial. Ao longo do período pré­-colonial foram, entretanto, enviadas várias expedições a nosso pais.
Primeiras expedições - Entre 1501 e 1502, Portugal enviou a primeira expedição com a finalidade de explorar e reconhecer o litoral brasileiro. Essa expedição, da qual se desconhece o nome do comandante, foi responsável pelo batismo de inúmeros lugares: cabo de S. Tomé, cabo Frio, São Vicente, etc. Com certeza, nessa expedição viajou o florentino Américo Vespúcio, que, posteriormente, em carta ao governante de Florença, Lourenço de Médici, irá declarar que não encontrou aqui nada de aproveitável. Apesar disso, constata a existência do pau-brasil, madeira tintorial conhecida dos europeus desde a Idade Média, que até então era importada do Oriente.
O pau-brasil - As primeiras atividades econômicas concentraram-se, pois, na extração ­daquela madeira, segundo o regime de estanco, isto é, sua exploração estava sob regime de monopólio régio. Como era costume, o rei co­locou em concorrência o contrato de sua exploração, que foi arrematada por um consórcio de mercadores de Lisboa chefiado pelo cristão novo Fernão de Noronha, em 1502.
No ano seguinte (1503) Fernão de Noronha montou uma expedição pata a extração do pau-brasil e fez o primeiro carregamento do produto.
No Brasil, foram estabelecidas então as feitorias, que eram lugares fortificados e funcionavam, ao mesmo tempo, como depósito de madeira. O pau-brasil era explorado através do escambo, no qual os indígenas forneciam a mão-de-obra para corte e transporte da madeira em troca de objetos de pouco valor para os portugueses.
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PERÍODO PRÉ-COLONIAL
O Período Pré-Colonial : A fase do pau-brasil (1500 a 1530)
A expressão " descobrimento " do Brasil está carregada de eurocentrismo, além de desconsiderar a existência dos índios em nosso país antes da chegada dos portugueses. Portanto, optamos pelo termo "chegada" dos portugueses ao Brasil. Esta ocorreu em 22 de abril de 1500, data que inaugura a fase pré-colonial. Neste período não houve a colonização do Brasil, pois os portugueses não se fixaram na terra. Após os primeiros contatos com os indígenas, muito bem relatados na carta de Caminha, os portugueses começaram a explorar o pau-brasil da mata Atlântica. O pau-brasil tinha um grande valor no mercado europeu, pois sua seiva, de cor avermelhada, era muito utilizada para tingir tecidos. Para executar esta exploração, os portugueses utilizaram o escambo, ou seja, deram espelhos, apitos, chocalhos e outras bugigangas aos nativos em troca do trabalho (corte do pau-brasil e carregamento até as caravelas). Nestes trinta anos, o Brasil foi atacado pelos holandeses, ingleses e franceses que tinham ficado de fora do Tratado de Tordesilhas (acordo entre Portugal e Espanha que dividiu as terras recém descobertas em 1494). Os corsários ou piratas também saqueavam e contrabandeavam o pau-brasil, provocando pavor no rei de Portugal. O medo da coroa portuguesa era perder o território brasileiro para um outro país. Para tentar evitar estes ataques, Portugal organizou e enviou ao Brasil as Expedições Guarda-Costas, porém com poucos resultados. Os portugueses continuaram a exploração da madeira, construindo as feitorias no litoral que nada mais eram do que armazéns e postos de trocas com os indígenas. No ano de 1530, o rei de Portugal organiza a primeira expedição com objetivos de colonização. Esta foi comandada por Martin Afonso de Souza e tinha como objetivos : povoar o território brasileiro, expulsar os invasores e iniciar o cultivo de cana-de-açúcar no Brasil.
A fase do Açúcar ( séculos XVI e XVII )
O açúcar era um produto de grande aceitação na Europa e alcançava um grande valor. Após as experiências positivas de cultivo no Nordeste, já que a cana-de-açúcar se adaptou bem ao clima e ao solo nordestino, começou o plantio em larga escala. Seria uma forma de Portugal lucrar com o comércio do açúcar, além de começar o povoamento do Brasil. Para melhor organizar a colônia, o rei resolveu dividir o Brasil em Capitanias Hereditárias. O território foi dividido em faixas de terras que foram doadas aos donatários. Estes podiam explorar os recursos da terra, porém ficavam encarregados de povoar, proteger e estabelecer o cultivo da cana-de-açúcar. No geral, o sistema de Capitanias Hereditárias fracassou, em função da grande distância da Metrópole, da falta de recursos e dos ataques de indígenas e piratas. As capitanias de São Vicente e Pernambuco foram as únicas que apresentaram resultados satisfatórios, graças aos investimentos do rei e de empresários.
Administração Colonial
Após a tentativa fracassada de estabelecer as Capitanias Hereditárias, a coroa portuguesa estabeleceu no Brasil o Governo-Geral. Era uma forma de centralizar e ter mais controle da colônia. O primeiro governador-geral foi Tomé de Souza, que recebeu do rei a missão de combater os indígenas rebeldes, aumentar a produção agrícola no Brasil, defender o território e procurar jazidas de ouro e prata. Também existiam as Câmaras Municipais que eram órgãos políticos compostos pelos "homens-bons". Estes eram os ricos proprietários que definiam os rumos políticos das vilas e cidades. O povo não podia participar da vida pública nesta fase. A capital do Brasil neste período foi Salvador, pois a região Nordeste era a mais desenvolvida e rica do país.
A economia colonial
A base da economia colonial era o engenho de açúcar. O senhor de engenho era um fazendeiro proprietário da unidade de produção de açúcar. Utilizava a mão-de-obra africana escrava e tinha como objetivo principal a venda do açúcar para o mercado europeu. Além do açúcar destacou-se também a produção de tabaco e algodão. As plantações ocorriam no sistema de plantation, ou seja, eram grandes fazendas produtoras de um único produto, utilizando mão-de-obra escrava e visando o comércio exterior. O Pacto Colonial imposto por Portugal estabelecia que o Brasil só podia fazer comércio com a metrópole.
A sociedade Colonial
A sociedade no período do açúcar era marcada pela grande diferenciação social. No topo da sociedade, com poderes políticos e econômicos, estavam os senhores de engenho. Abaixo, aparecia uma camada média formada por trabalhadores livres e funcionários públicos. E na base da sociedade estavam os escravos de origem africana. Era uma sociedade patriarcal, pois o senhor de engenho exercia um grande poder social. As mulheres tinham poucos poderes e nenhuma participação política, deviam apenas cuidar do lar e dos filhos. A casa-grande era a residência da família do senhor de engenho. Nela moravam, além da família, alguns agregados. O conforto da casa-grande contrastava com a miséria e péssimas condições de higiene das senzalas (habitações dos escravos)
Invasão holandesa no Brasil
Entre os anos de 1630 e 1654, o Nordeste brasileiro foi alvo de ataques e fixação de holandeses. Interessados no comércio de açúcar, os holandeses implantaram um governo em nosso território. Sob o comando de Maurício de Nassau, permaneceram lá até serem expulsos em 1654. Nassau desenvolveu diversos trabalhos em Recife, modernizando a cidade.
Expansão territorial : bandeiras e bandeirantes
Foram os bandeirantes os responsáveis pela ampliação do território brasileiro além do Tratado de Tordesilhas. Os bandeirantes penetram no território brasileiro, procurando índios para aprisionar e jazidas de ouro e diamantes. Foram os bandeirantes que encontraram as primeiras minas de ouro nas regiões de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso
O século do Ouro : século XVIII
Após a descoberta das primeiras minas de ouro, o rei de Portugal tratou de organizar sua extração. Interessado nesta nova fonte de lucros, já que o comércio de açúcar passava por uma fase de declínio, ele começou a cobrar o quinto. O quinto nada mais era do que um imposto cobrado pela coroa portuguesa e correspondia a 20% de todo ouro encontrado na colônia. Este imposto era cobrado nas Casas de Fundição. A descoberta de ouro e o início da exploração da minas nas regiões auríferas ( Minas Gerais, Mato Grosso e Goiás ) provocou uma verdadeira "corrida do ouro" para estas regiões. Procurando trabalho na região, desempregados de várias regiões do país partiram em busca do sonho de ficar rico da noite para o dia. Cidades começaram a surgir e o desenvolvimento urbano e cultural aumentou muito nestas regiões. Foi neste contexto que apareceu um dos mais importantes artistas plásticos do Brasil : Aleijadinho. Vários empregos surgiram nestas regiões, diversificando o mercado de trabalho na região aurífera. Para acompanhar o desenvolvimento da região sudeste, a capital do país foi transferida para o Rio de Janeiro.
Revoltas Coloniais e Conflitos
Em função da exploração exagerada da metrópole ocorreram várias revoltas e conflitos neste período:
Guerra dos Emboabas : os bandeirantes queriam exclusividade na exploração do ouro nas minas que encontraram. Entraram em choque com os paulistas que estavam explorando o ouro das minas.
Revolta de Filipe dos Santos : ocorrida em Vila Rica, representou a insatisfação dos donos de minas de ouro com a cobrança do quinto e das Casas de Fundição. O líder Filipe dos Santos foi preso e condenado a morte pela coroa portuguesa.
Inconfidência Mineira (1789) : liderada por Tiradentes , os inconfidentes mineiros queriam a libertação do Brasil de Portugal. O movimento foi descoberto pelo rei de Portugal e os líderes condenados.
Índios
Historiadores afirmam que antes da chegada dos europeus à América havia aproximadamente 100 milhões de índios no continente. Só em território brasileiro, esse número chegava 5 milhões de nativos, aproximadamente. Estes índios brasileiros estavam divididos em tribos, de acordo com o tronco lingüístico ao qual pertenciam: tupi-guaranis ( região do litoral ), macro-jê ou tapuias ( região do Planalto Central ), aruaques ( Amazônia ) e caraíbas ( Amazônia ). Atualmente, calcula-se que apenas 400 mil índios ocupam o território brasileiro, principalmente em reservas indígenas demarcadas e protegidas pelo governo. São cerca de 200 etnias indígenas e 170 línguas. Porém, muitas delas não vivem mais como antes da chegada dos portugueses. O contato com o homem branco fez com que muitas tribos perdessem sua identidade cultural.
A sociedade indígena na época da chegada dos portugueses.
O primeiro contato entre índios e portugueses em 1500 foi de muita estranheza para ambas as partes. As duas culturas eram muito diferentes e pertenciam a mundos completamente distintos. Sabemos muito sobre os índios que viviam naquela época, graças a Carta de Pero Vaz de Caminha ( escrivão da expedição de Pedro Álvares Cabral ) e também aos documentos deixados pelos padres jesuítas.
Os indígenas que habitavam o Brasil em 1500 viviam da caça, da pesca e da agricultura de milho, amendoim, feijão, abóbora, bata-doce e principalmente mandioca. Esta agricultura era praticada de forma bem rudimentar, pois utilizavam a técnica da coivara ( derrubada de mata e queimada para limpar o solo para o plantio). Os índios domesticavam animais de pequeno porte como, por exemplo, porco do mato e capivara. Não conheciam o cavalo, o boi e a galinha. Na Carta de Caminha é relatado que os índios se espantaram ao entrar em contato pela primeira vez com uma galinha.
As tribos indígenas possuíam uma relação baseada em regras sociais, políticas e religiosas. O contato entre as tribos acontecia em momentos de guerras, casamentos, cerimônias de enterro e também no momento de estabelecer alianças contra um inimigo comum.
Os índios faziam objetos utilizando as matérias-primas da natureza. Vale lembrar que índio respeita muito o meio ambiente, retirando dele somente o necessário para a sua sobrevivência. Desta madeira, construíam canoas, arcos e flechas e suas habitações (ocas ). A palha era utilizada para fazer cestos, esteiras, redes e outros objetos. A cerâmica também era muito utilizada para fazer potes, panelas e utensílios domésticos em geral. Penas e peles de animais serviam para fazer roupas ou enfeites para as cerimônias das tribos. O urucum era muito usado para fazer pinturas no corpo.
A organização social dos índios
Entre os indígenas não há classes sociais como a do homem branco. Todos têm os mesmo direitos e recebem o mesmo tratamento. A terra, por exemplo, pertence a todos e quando um índio caça, costuma dividir com os habitantes de sua tribo. Apenas os instrumentos de trabalho ( machado, arcos, flechas, arpões ) são de propriedade individual. O trabalho na tribo é realizado por todos, porém possui uma divisão por sexo e idade. As mulheres são responsáveis pela comida, crianças, colheita e plantio. Já os homens da tribo ficam encarregados do trabalho mais pesado: caça, pesca, guerra e derrubada das árvores.
Duas figuras importantes na organização das tribos são o pajé e o cacique. O pajé é o sacerdote da tribo, pois conhece todos os rituais e recebe as mensagens dos deuses. Ele também é o curandeiro, pois conhece todos os chás e ervas para curar doenças. Ele que faz o ritual da pajelança, onde evoca os deuses da floresta e dos ancestrais para ajudar na cura. O cacique, também importante na vida tribal, faz o papel de chefe, pois organiza e orienta os índios.
A educação indígena é bem interessante. Os pequenos índios, conhecidos como curumins, aprender desde pequenos e de forma prática. Costumam observar o que os adultos fazem e vão treinando desde cedo. Quando o pai vai caçar, costuma levar o indiozinho junto para que este aprender. Portanto a educação indígena é bem pratica e vinculada a realidade da vida da tribo. Quando atinge os 13 os 14 anos, o jovem passa por um teste e uma cerimônia para ingressar na vida adulta.
Os contatos entre indígenas e portugueses
Como dissemos, os primeiros contatos foram de estranheza e de certa admiração e respeito. Caminha relata a troca de sinais, presentes e informações. Quando os portugueses começam a explorar o pau-brasil das matas, começam a escravizar muitos indígenas ou a utilizar o escambo. Davam espelhos, apitos, colares e chocalhos para os indígenas em troca de seu trabalho. O canto que se segue foi muito prejudicial aos povos indígenas. Interessados nas terras, os portugueses usaram a violência contra os índios. Para tomar as terras, chegavam a matar os nativos ou até mesmo transmitir doenças a eles para dizimar tribos e tomar as terras. Esse comportamento violento seguiu-se por séculos, resultando no pequenos número de índios que temos hoje. A visão que o europeu tinha a respeito dos índios era eurocêntrica. Os portugueses achavam-se superiores aos indígenas e, portanto, deveriam dominá-los e colocá-los ao seu serviço. A cultura indígena era considera pelo europeu como sendo inferior e grosseira. Dentro desta visão, acreditavam que sua função era convertê-los ao cristianismo e fazer os índios seguirem a cultura européia. Foi assim, que aos poucos, os índios foram perdendo sua cultura e também sua identidade.
Canibalismo
Algumas tribos eram canibais como, por exemplo, os tupinambás que habitavam o litoral da região sudeste do Brasil. A antropofagia era praticada, pois acreditavam que ao comerem carne humana do inimigo estariam incorporando a sabedoria, valentia e conhecimentos. Desta forma, não se alimentavam da carne de pessoas fracas ou covardes. A prática do canibalismo era feira em rituais simbólicos.
Religião Indígena
Cada nação indígena possuía crenças e rituais religiosos diferenciados. Porém, todas as tribos acreditavam nas forças da natureza e nos espíritos dos antepassados. Para estes deuses e espíritos, faziam rituais, cerimônias e festas. O pajé era o responsável por transmitir estes conhecimentos aos habitantes da tribo. Algumas tribos chegavam a enterrar o corpo dos índios em grandes vasos de cerâmica, onde além do cadáver ficavam os objetos pessoais. Isto mostra que estas tribos acreditavam numa vida após a morte.
Bandeirantes
Os Bandeirantes foram os homens valentes, que no princípio da colonização do Brasil, foram usados pelos portugueses com o objetivo de lutar com indígenas rebeldes e escravos fugitivos.
Estes homens, que saiam de São Paulo e São Vicente, dirigiam-se para o interior do Brasil caminhando através de florestas e também seguindo caminho por rios, o Rio Tietê foi um dos principais meios de acesso para o interior de São Paulo. Estas explorações territoriais eram chamadas de Entradas ou Bandeiras. Enquanto as Entradas eram expedições oficiais organizadas pelo governo, as Bandeiras eram financiadas por particulares (senhores de engenho, donos de minas, comerciantes).
Estas expedições tinham como objetivo predominante capturar os índios e procurar por pedras e metais preciosos. Contudo, estes homens ficaram historicamente conhecidos como os responsáveis pela conquista de grande parte do território brasileiro. Alguns chegaram até fora do território brasileiro, em locais como a Bolívia e o Uruguai.
Do século XVII em diante, o interesse dos portugueses passou a ser a procura por ouro e pedras preciosas. Então os bandeirantes Fernão Dias Pais e seu genro Manuel Borba Gato se concentraram nestas buscas desbravando Minas Gerais. Depois outros bandeirantes foram para além da linha do Tratado de Tordesilhas e descobriram entre muitos metais preciosos, o ouro. Muitos aventureiros os seguiram, e, estes, permaneceram em Goiás e Mato Grosso dando início a formação das primeiras cidades. Nessa ocasião destacaram-se: Antonio Pedroso, Alvarenga e Bartolomeu Bueno da Veiga, o Anhanguera.
Outros bandeirantes que fizeram nome neste período foram: Jerônimo Leitão (primeira bandeira conhecida), Nicolau Barreto (seguiu trajeto pelo Tietê e Paraná e regressou com índios capturados), Antônio Raposo Tavares (atacou missões jesuítas espanholas para capturar índios), Francisco Bueno (missões no Sul até o Uruguai).
Como conclusão, pode-se dizer que os bandeirantes foram responsáveis pela expansão do território brasileiro, desbravando os sertões além do Tratado de Tordesilhas. Por outro lado, agiram de forma violenta na caça de indígenas e de escravos foragidos, contribuindo para a manutenção do sistema escravocrata que vigorava no Brasil Colônia.
Aleijadinho
Aleijadinho (Antônio Francisco Lisboa) nasceu em Vila Rica no ano de 1730 (não há registros oficiais sobre esta data). Era filho de uma escrava com um mestre-de-obras português. Iniciou sua vida artística ainda na infância, observando o trabalho de seu pai que também era entalhador.
Por volta de 40 anos de idade, começa a desenvolver uma doença degenerativa nas articulações. Não se sabe exatamente qual foi a doença, mas provavelmente pode ter sido hanseníase ou alguma doença reumática. Aos poucos, foi perdendo os movimentos dos pés e mãos. Pedia a um ajudante para amarrar as ferramentas em seus punhos para poder esculpir e entalhar. Demonstra um esforço fora do comum para continuar com sua arte. Mesmo com todas as limitações, continua trabalhando na construção de igrejas e altares nas cidades de Minas Gerais.
Na fase anterior a doença, suas obras são marcadas pelo equilíbrio, harmonia e serenidade. São desta época a Igreja São Francisco de Assis, Igreja Nossa Senhora das Mercês e Perdões (as duas na cidade de Ouro Preto).
Já com a doença, Aleijadinho começa a dar um tom mais expressionista às suas obras de arte. É deste período o conjunto de esculturas Os Passos da Paixão e Os Doze Profetas, da Igreja de Bom Jesus de Matosinhos, na cidade de Congonhas do Campo. O trabalho artístico formado por 66 imagens religiosas esculpidas em madeira e 12 feitas de pedra-sabão, é considerado um dos mais importantes e representativos do barroco brasileiro.
A obra de Aleijadinho mistura diversos estilos do barroco. Em suas esculturas estão presentes características do rococó e dos estilos clássico e gótico. Utilizou como material de suas obras de arte, principalmente a pedra-sabão, matéria-prima brasileira.
Morreu pobre, doente e abandonado na cidade de Ouro Preto no ano de 1814 (ano provável). O conjunto de sua obra foi reconhecido como importante muitos anos depois. Atualmente, Aleijadinho é considerado o mais importante artista plástico do barroco mineiro.
Fonte: www.suapesquisa.com

A carta de Caminha: comentários


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A carta de Caminha: comentários

Adaptado do livro Brasil 1500: quarenta documentos, de Janaína Amado e Luiz Carlos Figueiredo(Brasília: UnB, São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001, pp. 118 a 122)


A carta de Caminha - o mais minucioso e importante documento relacionado à viagem da esquadra de Cabral ao Brasil - foi publicada pela primeira vez apenas em 1817, mais de trezentos anos após haver sido redigida, como parte do livro Corografia Brasílica..., de autoria de Manuel Aires do Casal . Isto significa que, até essa época, a história contada sobre a viagem de 1500 foi substancialmente diversa da narrada depois. A carta de Caminha contém informações e pormenores sobre a viagem até o Brasil e a estadia nesse país inexistentes nas outras fontes conhecidas.A partir da primeira publicação, a carta de Caminha, que despertou grande interesse e conquistou enorme público leitor, conheceu várias edições, novas leituras paleográficas e traduções em outra línguas. Desde a sua divulgação, tem sido saudada como um documento raro, capaz tanto de fornecer informações sobre a viagem de 1500, os episódios ocorridos durante a estada da expedição no Brasil, a fauna e a flora brasileira e os índios Tupiniquim, como também de esclarecer várias dimensões da mentalidade e dos interesses dos navegadores da Europa. O texto de Pero Vaz de Caminha - cidadão da cidade do Porto, mestre da balança da moeda, de família respeitável, porém sem tradições literárias - tem a preocupação básica de informar, procurando transmitir o máximo possível de dados a respeito do que ocorria e do que o escrivão via, ouvia e sentia. Não se trata nem de um texto carregado de alusões eruditas, ao gosto de muitos escritores e leitores cultos de então, nem de um texto recheado de informações científicas e cosmográficas, também ao gosto da época. Como bem frisou Malheiro Dias , a carta de Caminha é sobretudo "uma narrativa impressionista", na qual são registradas, de forma direta, as impressões do observador a respeito de suas vivências. São preciosas sobretudo as abundantes informações, que ocupam grande parte da carta, a respeito dos Tupiniquim, povo sem escrita dizimado poucas décadas depois, em meio de doenças contraídas dos europeus, contra as quais não possuíam resistência, e da violência dos contatos.O fato de ser um texto informativo alia-se a outras importantes dimensões do documento. A carta de Caminha insere-se no esforço conjunto dos europeus, concretizado nos textos de viagem da época (especialmente nos escritos por integrantes das expedições), no sentido de construir alteridades, à medida mesmo que os navegantes entravam em contato com diversas terras e povos - alguns, como os índios e o futuro Brasil, totalmente desconhecidos deles -, com os quais seria preciso conviver dali em diante e, para conseguir dominar, sobretudo conhecer. E conhecer significava essencialmente duas coisas: fazer o inventário das diferenças entre cada um dos povos encontrados pelo mundo - seus costumes, idiomas, crenças, alimentos, economias, organizações sociais, etc. - e os povos conhecidos da Europa; e construir categorias a respeito de tais povos, a fim de poder inclui-los no universo mental dos europeus e, dessa forma, lidar na prática com tais povos: "afinal, não se dominam povos porque são 'diferentes', mas sim os tornam 'diferentes' para dominá-los; esta tem sido um constante na história dos povos" . Na época moderna, esse complexo e "longo processo ideológico de construção do outro" aconteceu aos poucos. Conheceu caminhos tortuosos e contraditórios, teceu sua própria história. "Ainda que a descoberta do outro deva ser assumida por cada indivíduo, e recomece eternamente, ela também tem uma história, formas socialmente e culturalmente determinadas" . A carta de Caminha é parte do início do processo histórico de construção do outro pelos europeus, especialmente do outro que vivia no espaço brasileiro. O escrivão português foi minucioso na elaboração do seu inventário de diferenças, incluindo não somente pessoas, mas animais, plantas, relevo, vegetação, clima, solo, produtos da terra, etc. Tal como a maioria dos textos de viagem da época, a carta de Caminha elaborou grande parte de seu inventário de diferenças com base na analogia com o conhecido, ou seja, com os padrões europeus ou, no máximo, com os observados nas terras e povos do litoral da África ocidental, onde a presença portuguesa já se fazia sentir há décadas. Os corpos e as "vergonhas" das índias brasileiras são comparados aos das européias, os indígenas não costumavam saudar as pessoas à maneira dos civilizados, o clima não é o mesmo da Europa, etc. - os exemplos são numerosos, espalham-se por todo o texto. Como também era característico dos relatos de viagem do seu tempo, Caminha utilizou-se de outro recurso para construir a diferença em relação ao outro: a projeção, sobre o outro, dos próprios desejos e expectativas dos navegadores. "Isto tomávamo-lo assim por o desejarmos", resumiu o escrivão, ao interpretar como havendo ouro na terra o significado de alguns gestos dos índios. Outros desejos dos portugueses foram projetados na carta de forma menos consciente, como, por exemplo, a conclusão de Caminha de que, por imitarem os gestos dos cristãos durante a missa, os indígenas seriam facilmente convertidos ao cristianismo. Mesclavam-se o conhecido e o desejado, na construção da diferença. Seja pela expressão dos próprios desejos ou pela analogia com o conhecido, os europeus projetaram sobre o outro a sua grande sombra: à medida que decifravam o desconhecido, redimensionavam e redefiniam a si próprios. Na carta de Caminha estão também registradas as primeiras tentativas de manejar categorias para apreender esse outro ainda tão novo. Conforme apontam as notas ao texto, as duas mais importantes categorias européias futuras, relativas aos índios - tanto a do "bom selvagem" quanto a do "selvagem inferior e bestial" (à qual se associou, muitas vezes, a característica "demoníaco") -, estão já sugeridas na carta. Caminha, portanto, construiu não só um inventário das diferenças entre europeus e índios, mas também insinuou categorias importantes para começar a pensar o diferente e com ele lidar. O texto do escrivão foi além. Reunindo o que viu às categorias que construiu, Caminha completou o ciclo: propôs ao rei, no final de seu texto, caminhos concretos para o aproveitamento do território e de seus habitantes, a saber: o desenvolvimento da agricultura e a cristianização dos índios. O escrivão viu o diferente, apreendeu-o segundo a sua própria mentalidade e, porque fez isso, foi capaz de dar o terceiro passo: sugerir ao monarca os caminhos do futuro, que eram os caminhos da desigualdade entre visitantes e habitantes, os caminhos da dominação portuguesa. Os acontecimentos descritos na carta - o tempo presente da chegada à terra - podiam incluir - como efetivamente incluíram - congraçamentos e danças coletivas entre navegadores portugueses e índios, além de atitudes legítimas de curiosidade, espanto e tolerância, profundamente humanas, por parte do escrivão ou de outros tripulantes, frente à terra bela e à sua gente agreste. Mas o futuro importava, e foi com o olho no futuro que Caminha escreveu sua carta.

domingo, 30 de novembro de 2008

Etnocentrismo e Anacronismo no descobrimento do Brasil
Para o historiador Fernando Novais, professor aposentado do Departamento de História da USP e professor do Instituto de Economia da Unicamp, o ano de 1500 marca para a História do Brasil o surgimento das bases da colonização portuguesa, e nunca o descobrimento do Brasil. Autor de um dos principais clássicos da historiografia colonial - "Portugal e Brasil na Crise do Antigo Sistema Colonial (1777-1801)" - Fernando Novais, em entrevista publicada no jornal Folha de São Paulo em 24 de abril de 2000, enfatiza a crítica ao etnocentrismo e ao anacronismo presentes na história do Brasil com a viagem de Cabral.Quando utilizamos o termo Descobrimento do Brasil, encontramos tanto etnocentrismo como anacronismo. O primeiro está presente na palavra Descobrimento e o segundo em Brasil. Para o historiador, o etnocentrismo encontra-se em nossa história, evidenciando a visão do conquistador, do vencedor, onde os portugueses seriam "o agente" e os índios "os descobertos", os protagonistas passivos do episódio. A crítica ao etnocentrismo porém, não deve nos levar à idéia de reconstituir a história do ponto de vista dos vencidos: "... nós não podemos nos transformar em índios. Uma coisa é fazer o estudo da visão dos índios e outra é reconstituir a história a partir do seu ponto de vista. A história precisa ultrapassar os pontos de vista do vencido e do vencedor e dizer alguma coisa a mais. Como nação, somos herdeiros dos europeus, dos índios e dos negros, mas todos não participam da mesma maneira na nossa formação. Um foi o vencedor e os outros foram os vencidos."A questão do anacronismo é um pouco mais delicada, já que os historiadores não a discutem, como discutem o etnocentrismo. Para Fernando Novais, o anacronismo somente seria evitado se, no momento de reconstituir determinado segmento do passado, o historiador não soubesse o que aconteceu depois. "O historiador incorre no anacronismo quando ele imputa aos protagonistas o conhecimento sobre os acontecimentos posteriores. A reconstituição se torna uma profecia do passado."O perigo do anacronismo é muito maior principalmente quando a nação, como objeto do discurso do historiador, precisa de passado para se legitimar. "Os franceses, por exemplo, vêem seu passado mais remoto na Gália romana. No caso do Brasil, reconstituir a viagem de Cabral como Descobrimento do Brasil pressupõe imaginar que ele já sabia que iria se reconstituir no século XIX uma nação com esse nome. Isso é anacronismo. E a viagem se torna fundadora, isto é, um mito."Fernando Novais afirma que o Brasil é um povo que se constituiu numa nação, que posteriormente se organizou como Estado. Em 1500 não havia nenhuma dessas três coisas. Logo, não houve Descobrimento do Brasil, porque o Brasil não existia nem estava encoberto. Naquele momento surgiram apenas as bases da colonização portuguesa, que é a base da nossa formação. "A história do Brasil é essencialmente a de uma colônia que se transformou numa nação. Logo, a colonização é a base de nossa história e nesse sentido Cabral é importante."Outra questão colocada na entrevista trata do momento em que a população começou a se pensar como diferente de seus antecessores. Esse sentimento da diferença do colonizador surge somente na segunda metade do século XVlll, como desdobramento de uma evolução natural à formação histórica do Brasil, onde a população, primeiro luso-brasileira, vai se sentindo menos lusa e mais brasileira até se sentir somente brasileira."Até o início do século XlX, â??brasileiroâ?? era o comerciante do pau-brasil. É uma das diferenças entre os hispano-americanos e os luso-americanos. Na América Espanhola, desde o fim do século XVl, os espanhóis nascidos na colônia se chamavam de â??criollosâ??.Não há no Brasil palavra equivalente. Havia no Nordeste a palavra â??mazomboâ??. A partir do século XVll usava-se por aqui a palavra â??reinolâ?? para designar os portugueses nascidos em Portugal. Logo, diferentemente dos hispano-americanos que se identificavam por aquilo que julgavam ser (â??nossotros somos criollosâ??), os luso-americanos se identificavam negativamente por aquilo que sabiam não ser ( â?? nós não somos reinóis â?? ). Isso é importante para compreendermos porque na América espanhola o processo foi muito mais revolucionário. Por aqui foi uma transição dinástica."Nesses 500 anos que nos separam da expedição cabralina, é importante restabelecer o verdadeiro significado histórico da viagem de Cabral, reduzindo sua dimensão, ainda superestimada na história do Brasil. Em abril de 1500, Cabral apenas chegou em terras ocidentais e a partir daí, a intenção de Portugal sempre foi a de criar uma colônia, e não uma nação.A viagem de Cabral - uma esquadra apenas secundária para coroa portuguesa, de caráter subsidiário à expedição de Vasco da Gama nas Índias - não significou Descobrimento e nem deve ser vista como iniciadora da colonização. Esta, começou de fato, somente por volta de 1532, com a expedição de Martim Afonso de Sousa, que além de ter fundado o primeiro núcleo de colonização - a vila de São Vicente - , trouxe para colônia, as primeiras mudas de cana-de-açúcar, inaugurando o primeiro engenho, no processo de consolidação do Antigo Sistema Colonial.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Influências da tecnologia digitalSobre a língua e o textoum olhar preliminar
Nataniel dos Santos Gomes (UNESA)Jacqueline Rodrigues Longchamps (UNESA)Silvana Ayko Asakura Simões Maggessi Pereira (UNESA)

Uma das discussões em pauta nos meios pedagógico e acadêmico atualmente é a que diz respeito ao fato de a Internet estar influenciando a escrita dos jovens. Mas seria esta uma influência positiva ou negativa? Trata-se de um ponto de discórdia entre especialistas, uma vez que os gramáticos vêem a Web como um veículo deturpador da linguagem culta, enquanto os lingüistas investigam mais profundamente não só a influência desta na escrita, como também os gêneros textuais emergentes e que contribuições o hipertexto tem trazido à reflexão dos próprios escritores.
Segundo Marcuschi (2004: 13), a Internet é “um protótipo de novas formas de comportamento comunicativo”. No entanto, foi criada em meados dos anos 60 para fins militares:
(...) a ARPANET (Advanced Research Projects Agency Network) do Pentágono uniu pela primeira vez computadores situados em regiões geográficas distantes. Era o germe da Internet que chegaria aos anos 90 com impressionante desenvolvimento e versatilidade (...) (p. 15, nota 5).
Conforme citado anteriormente, os lingüistas vêm investigando a linguagem digital, a fim de desvendar seus vários aspectos, dentre eles: a análise do discurso, os tipos de texto e a escrita propriamente dita.
À análise do discurso cabe o estudo da relação entre a linguagem, o seu significado e o meio social onde ocorre, a fim de identificar os elementos e os recursos utilizados em diversos gêneros textuais que caracterizam quem escreve, a quem se destina e qual a fiel intenção e significado da mensagem. E então, fazer uma correlação com os imaginários sociais (o modo de pensar, o histórico cultural de uma sociedade).
O meio aqui investigado é o virtual, os mais novos gêneros discursivos com seus propósitos e peculiaridades que veremos mais adiante e que, por sua alta mutabilidade, atualizações instantâneas e a capacidade de alcance veloz e extensa (a informação corre todo o mundo em segundos, diferente dos outros meios, como livros e revistas), torna, ao mesmo tempo, a sua análise tanto inesgotável como fascinante.
Tomando como exemplo a manchete de um jornal virtual e fazendo nele um estudo, não da veracidade de seu conteúdo, mas de suas marcas formais, da sociedade que o recebe e aceita como fonte de informação e de seu fiel significado, se é que pode existir fidelidade na interpretação do leitor para com a intenção do autor, é possível enxergar mais a fundo os aspectos concernentes à analise do discurso:
“CPI dos Correios perde fôlego e teme pizza”
(Agência Estado)
Em 02/10/2005, 08h10min
Essa manchete demanda do leitor um conhecimento prévio, o jornalista que a escreveu partiu do pressuposto que o seu público alvo está acompanhando a política do país. A escolha dos termos CPI e pizza (linguagem conotativa) torna a mensagem codificada, talvez para restringir seu alcance, bem diferente de um anúncio comercial, onde o objetivo é atingir o maior número de pessoas. Por trás de cada texto, palavra, letra, há, sem sombra de dúvida, uma intenção, uma adequação de termos, estruturas, todos os instrumentos disponíveis da tecnologia para se ter a língua em uso pleno com seus significados, interferindo e transformando a opinião da sociedade.
Um gênero textual representa uma variedade de texto historicamente estável, dotada de traços distintivos evidentes, como por exemplo: poesia lírica, liturgia religiosa, documentos legais, provérbios, contos de fadas, trabalhos escolares, noticiário de jornais, entre outros. Nos estudos sobre os gêneros textuais, verificou-se que, para cada tipo de texto conhecido, há um correspondente na Grande Rede, isto é, uma ‘contraparte’. Eis alguns deles:
Gêneros já existentes (1)
Gêneros emergentes (2)
Carta pessoal / bilhete / correio 1
E-mail 2
Conversações (em grupos abertos) 1
Chat em aberto 2
Conversações duais (casuais) 1
Chat reservado 2
Encontros pessoais (agendados) 1
Chat ICQ (agendado) 2
Conversações (fechadas) 1
Chat em salas privadas 2
Entrevista com pessoa convidada 1
Entrevista com convidado 2
Aulas por correspondência 1
E-mail educacional (aula por e-mail) 2
Aulas presenciais 1
Aula chat (aulas virtuais) 2
Reunião de grupo / conferência / debate 1
Vídeo-conferência interativa 2
Circulares / séries de circulares 1
Lista de discussão 2
Endereço postal 1
Endereço eletrônico 2
Diário pessoal, anotações, agendas 1
Blog 2
(MARCUSCHI, 2004: 31)
Contudo, os gêneros mais populares entre os usuários da Internet são os sites com seus hipertextos, o e-mail, o chat e os blogs. Os sites, também conhecidos como páginas da Internet são a interface por meio da qual o internauta tem acesso às mais variadas informações expostas na Rede. Este texto virtual recebe o nome de ‘hipertexto’ e, segundo (Marcuschi, 2004: 145): “representa uma nova forma de acessar, produzir e interpretar informações de maneira multisensorial que se constitui no modo de enunciação digital”. Isto porque um hipertexto pode ser posto à disposição ou ser acessado por uma ou diversas pessoas simultaneamente e de diversas partes do mundo, além de apresentar recursos visuais e sonoros. Entretanto, a característica fundamental do hipertexto é o hiperlink: palavras ou seqüência delas que, ao serem clicadas, remetem o usuário a uma outra página contendo outro texto. No entanto, o hipertexto não foi assim idealizado por acaso. Trata-se de uma segmentação intencional do texto em partes menores que, conectadas entre si, contornam problemas como os de limitação de tela ganhando, ainda, a vantagem de receber os vários recursos oferecidos pelo meio.
Mas não são apenas vantagens que estão atreladas aos hipertextos. Há, por exemplo, o problema de acesso, uma vez que cada página está vinculada a um endereço que não pode ser digitado incorretamente, pois do contrário, o site não será encontrado. Outro detalhe a ser levado em consideração é o fato de que inúmeros textos interligados podem trazer ao leitor/usuário inexperiente alguma frustração, uma vez que tamanha quantidade de informação pode vir a sobrecarregá-lo cognitivamente, fazendo com que o internauta se desvie e até mesmo se perca em sua pesquisa. Isto, sem mencionar que ainda existem diversos sites que não apresentam informações idôneas.
O e-mail ou correio eletrônico é o endereço por meio do qual se envia e recebe mensagens. Equivale às cartas e bilhetes e outras formas de correspondência. Eis um exemplo:
De: "Jackie" (jrl21@openlink.com.br)
Para: "Nataniel Gomes" (natanielgomes@uol.com.br)
Data: Mon, 7 Nov 2005 16:54:15
Assunto: Interessante!

Nataniel,
Você já viu este site? Se não, dê uma olhada, pois acho que há mais dois livros que podem interessar para nossa pesquisa:
www.letramagna.com
Abraço,
Jackie
Como no caso dos sites, os e-mails também apresentam pontos positivos e outros nem tanto. Entre algumas das vantagens, pode-se citar: a velocidade da transmissão; o fato de que a mesma mensagem pode ser enviada para milhares de pessoas no mundo inteiro e ao mesmo tempo, além de poder ser arquivada, impressa, re-encaminhada, copiada e re-utilizada; arquivos em formatos diversos podem ser anexados; facilidade na colaboração, discussão e criação de comunidades discursivas. Por outro lado, alguns dos pontos negativos são: dependência de provedores, que no caso de acesso discado, ainda custam muito caro no Brasil; o e-mail pode ser enviado para o endereço errado, ser copiado ou alterado, o que gera, muitas vezes, invasão de privacidade; excesso de mensagens indesejáveis, o que gera caixas postais cheias; a incompatibilidade dos softwares utilizados por remetentes e destinatários pode dificultar ou até mesmo impedir a leitura. Isto sem mencionar os arquivos anexos que podem conter vírus.
Outro fato curioso com relação aos e-mails: na tentativa de exprimir melhor os sentimentos através da escrita, o remetente, que não dispõe de gestos, expressões faciais, entre outros, passa a fazer uso dos chamados ‘emoticons’ ou itens que expressam emoções. A seguir, tem-se uma lista com apenas alguns destes ícones:


:-) (feliz / sorrindo)
>:-( (raiva)
:-D (gargalhada)
:-} (sorriso irônico)
:-( (triste)
; -) (piscada)
O chat ou ‘conversa pela Internet através da escrita’, talvez venha a ser o gênero mais popular entre os jovens. As principais características do chat são: a possibilidade de seleção da sala (por idade, por cidades e regiões, por temas, entre outros); a escolha de um apelido (nickname ou nick) que é escolhido com determinada intenção e que serve como uma espécie de máscara para o usuário; a possibilidade de diálogos simultâneos e a escrita próxima à fala contendo expressões formulaicas com efeito de homofonia, do tipo (Marcuschi, 2004: 45): gato100gata (gato sem gata), Hta (a gata) e gostosaD+ (gostosa demais). É neste gênero que ocorrem as mais diversas radicalizações em termos de escrita. Como afirma Marcuschi (2004: 108-109): “o chat é um gênero de natureza híbrida, pois funde oralidade e escrita em um mesmo suporte, a tela do computador”. A conversa abaixo foi retirada do Chat UOL de 04 de setembro de 2005 às 22:51, mais especificamente de uma sala em que os participantes são, teoricamente, de Alagoas.
•(10:59:51) VelhoGordoFeioPobr fala para Tia Serena: VOU PEGAR UM PAU DE ARARA E VOU PRA SAMPA
•(11:00:09) Tia Serena sorri para VelhoGordoFeioPobr: tu aguenta a viagem????
•(11:00:31) VelhoGordoFeioPobr fala para Tia Serena: COMO TEM GENTE MAL EDUCADA NESSA SALA , NEM EU QUE FIZ MOBRAL SOU MAL EDUCADO
•11:00:50) Tia Serena sorri para VelhoGordoFeioPobr: infelizmente é assim mesmo......nem ligue.......
•(11:00:52) VelhoGordoFeioPobr fala para Tia Serena: OXENTE PEGO A BISACA DE FARINHA E ME VOU
•(11:01:10) Tia Serena sorri para VelhoGordoFeioPobr: risos..... eu não aguento uma viagem assim.......
•(11:01:53) VelhoGordoFeioPobr fala para Tia Serena: OXENTE MUIÉ...QUANTAS VEZES JA FOSTE AO JUAZEIRO DO MEU PADIM PADRE CICERO ...
Fica claro que a escrita correspondente ao diálogo acima representa a fala real dos participantes, pois até mesmo o “sotaque”[1] e expressões regionais, podem ser observados nas sentenças. A idade também fica mais ou menos detectável, pois uma pessoa que menciona o MOBRAL, instituição que não mais existe, tem que pertencer a determinada faixa etária. Ademais, tem-se as expressões ‘fala para’ e ‘sorri para’ que, como no caso dos emoticons, revelam o estado emocional do participante do chat, isto é, o modo pelo qual ele se expressaria se estivesse em uma conversa ao vivo.
A expressão ‘blog’ é derivada de ‘Weblog’, que significa ‘arquivo na rede’. Os blogs representam uma espécie de diário pessoal virtual em que o usuário registra suas experiências, opiniões e preferências com certa regularidade e em ordem cronológica e, em alguns casos, até funciona como site. Exatamente como nos diários, os blogs apresentam um cabeçalho contendo o dia da semana, o dia do mês, mês e ano, além da hora com minutos e segundos. Esta última informação é a única que não consta no diário comum. Uma diferença a ser apontada é que os blogs comportam informações não sobre celebridades, mas antes, sobre pessoas comuns que disponibilizam suas informações na rede de modo que qualquer indivíduo conectado à Rede possa acessá-las. A seguir, um exemplo de uma pequena parte de um blog disponível no endereço http://profemau.blogspot.com :
• Seu Nome:Mauricio de Souza Idade: 49Cidade: Rio de JaneiroProfissão: Músico e Professor de Português e Literatura - Gosto de quem valoriza a vida e a tem como uma oportunidade de ser um pedaço de Deus na criação e na responsabilidade. Gosto de pessoas do bem; sentir que a vida me cerca. - Não gosto de pensamentos medíocres, de inveja, fraqueza de caráter e gente que se julga imortal. Não gosto de quem destrói mesmo que de brincadeira; de quem cria personagens para tentar esconder o que verdadeiramente é. De quem já sabe tudo ou que não pode nada.
Quinta-feira, Março 17, 2005
Um Dia, Uma Estrela... mas como alguém pode se dizer uma estrela? Levei algum tempo para entender como alguém poderia ter esta celeste pretensão. No entanto me calei, preferindo assim refletir a assumir uma postura de revolta por considerar pretenciosa tal declaração...
Nos blogs encontram-se múltiplas semioses, tais como: textos escritos, imagens (fotos, desenhos e animações), som (músicas principalmente), entre outros. Para citar algumas das vantagens dos blogs, tem-se a gratuidade do serviço e o fato de não demandar o conhecimento de um especialista em informática para seu uso. Por esta razão, é que este gênero vem se popularizando cada dia mais entre jovens e adultos.
Na verdade, vários são os gêneros digitais emergentes e outros ainda poderiam ser mostrados aqui. Porém uma característica é comum a todos eles: o tipo de linguagem utilizada pelos internautas. A análise desta revela as mais interessantes nuances.
As pesquisas na área da linguagem na era digital têm trazido a foco certos estilos e usos, de fato, curiosos. Começando pela ortografia: esta é considerada bizarra e, corroborada por uma pontuação minimalista, torna-se, muitas vezes, até mesmo ininteligível, como no exemplo abaixo, um depoimento retirado do Orkut no dia 31 de outubro de 2005. As palavras pejorativas foram substituídas por asteriscos:
OiE!! Po, Tu FoI lAh, EsCrEvEu Um DePoImEnTo MtO LiNdO PrA MiM e To ViNdU aKi ReTrEbUiR!!:
Po, logo q eu te vi, eu axei q vc era mo metido...com essa sua kra d mal misturada cum kra d marrentu aih!!! rsrs pensei q vc nem ia olhar na minha kra...!! maix aih eu nem sei comoma gente começou a se falar +-, com um "oi" d longe, nehh!?? hehe
aih agora q eu jah t conheço, eu vi a pessoa SUPER ESPECIAL q vc eh!!
Vc eh mto f***,lindo,engraçado,... mt tudoOoO!! Eu to amandu mto t conheçer melhor!! mesmo as vezes vc naum indu falar cmg, nehh!! rsrs
e vc ainda naum m mostrou, hein!! s*******!! eu nau eskeci naum, tah ligadoOo!? rsrs
po, eh ixu...!!
axu q jah deu pra percebeu u qto vc jah eh especial p mim, neh!??
TxI aMuUuUu mToOoOo!!
BjaoOoOo lek!!
Outro ponto forte desse tipo de escrita revela-se na abundância de siglas:
KOEH (qual é?) MSM (mesmo)
KBCA (cabeça) AXU (acho)
BLZ (beleza) 9 da 10 (novidades)
KD (cadê?) XPERA (espera)
CTAFIM (você está a fim?) QQ (qualquer coisa)
D+ (demais) BGD (obrigado)
TC (teclar) TDX (todos)
T+ (até mais) FiK (ficar)
TLÁ (até lá)
Não é difícil notar que até mesmo traços fonéticos e fonológicos do dialeto do Rio de Janeiro estão presentes em siglas como ‘XPERA’ E ‘TDX’. As abreviaturas, por sua vez, se mostram nada convencionais. Não é raro uma mesma palavra apresentar mais de uma, como por exemplo, nas palavras ‘não’, ‘beijos’ e ‘você’ abaixo respectivamente:
naum; nah; ñ; n
bjs; bjx; bjoo; bxxx
vc; cê; c
Analisando as abreviações acima, pode-se concluir que as mesmas representam uma escrita essencialmente fonológica, embora, algumas formas expressem uma escrita simbólica como, por exemplo, em [ ]ão = abração. A onomatopéia também é muito utilizada na escrita da Internet. Pode-se constatá-la em: ‘smack’ (som de um beijo) e ‘kkkkkkkkkk’ (som de uma gargalhada).
Estruturas frasais pouco ortodoxas também fazem parte da linguagem virtual que constitui um amálgama de inglês, português, letras, números, palavras inteiras e contrações e/ou siglas. Vejam-se os exemplos abaixo, retirados dos sites www.transl8it.com e www.netlingo.com, respectivamente:
“How r u?” (How are you?)
“Y dont u sign^ 2day?” (Why don’t you sign up today?)
“CIA L8r HAND” (See you later! Have a nice day!)

“SMIM” (Send me an instant message)
“ SWDYT” (So, what do you think?)
“TOM” (Tomorrow)
Apenas ratificando o que foi dito acima, os nicks usados pelos internautas que participam de chats se apresentam, em geral, com uma escrita semi-alfabética, que representam idéias completas, verdadeiras ou não:
@nJo(sol!t@r!0) (anjo solitário)
(BOL/28.08.05/19:30/16-20 anos)

°þЩ°.¦ñøw®ø†¡¢ø (??? neurótico!)
(UOL/27.08.05/22:00/Rio/10-15 anos)

G@tos@.58/RJ (gatosa.58 anos/Rio de Janeiro)
(UOL/27.08.05/22:30/Rio/50 anos)

H.InocenteQexperie (homem inocente que espere)
(UOL/27.08.05/22:00/Rio/50 anos)

Htinha (a gatinha)
(UOL/04.09.05/22:23/Rio/até 10 anos)

Rapzdfiestamarrom (rapaz de Fiesta marrom)
(UOL/04.09.05/22:51/Alagoas/Cidades e regiões)

Gato_CAM_OO_Verdes (gato com olhos verdes)
(UOL/04.09.05/20:30/Rio/20-30 anos)
Do ponto de vista da natureza enunciativa da linguagem, o que se verifica é o uso de diferentes semioses com o fim de suprir as lacunas da comunicação, tendo em vista a natureza do meio (participação mais intensa e menos pessoal (hiperpessoalidade)). Isto gera o uso dos emoticons, já citados anteriormente.

Conclusão
De acordo com o exposto acima, pode-se concluir que a formação de palavras na era digital envolve uma série de aspectos, entre eles, uma nova ortografia, neologismos, escrita com traços orais e uma análise do discurso que ainda proporcionará muitas descobertas. Com relação às contribuições que o hipertexto tem dado aos escritores, pode-se destacar a maior atenção que estes precisam ter ao produzir seus textos, uma vez que os links de um site podem ser acessados de maneira diferente por diferentes internautas, o que pode acarretar um tipo de interpretação de texto para cada usuário e que, por sua vez, pode diferir daquela pretendida pelo autor.
Estamos, então, em um caminho sem volta e, apesar de muitos ainda estarem excluídos desse mundo virtual, ele chegou para ficar, ou melhor, para nos levar a um universo infinito de informações, inovações e por que não dizer, de relações. O meio social onde ocorre essa comunicação é incomensurável, a língua é altamente flexível e mutante, o que dizer então do seu significado? Analisar essas novas formas de expressão, que ultrapassam a barreira plana da tela e acabam por invadir a gramática da nossa língua, umas vezes acrescentando, outras confundindo e atrapalhando, nos oferecendo uma enxurrada de informações e ferramentas de aprimoramento tanto no escrever como no compreender será um trabalho árduo, instigante e riquíssimo para a evolução da comunicação.
Este é apenas um trabalho inicial a ser desenvolvido nos próximos anos por meio de monografias, artigos e dissertações.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARAÚJO, Júlio César Rosa de. A conversa na web: o estudo da transmutação em um gênero textual. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos. (Orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004, p. 91-109.
BRAGA, Denise Bértoli. A comunicação interativa em ambiente hipermídia: as vantagens da hipermodalidade para o aprendizado no meio digital. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos. (Orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004, p. 144-162.
GALLI, Fernanda Correa Silveira. Linguagem da Internet: um meio de comunicação global. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos. (Orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004, p. 120-134.
KOMESU, Fabiana Cristina. Blogs e as práticas de escrita sobre si na Internet. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos. (Orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004, p. 110-119.
MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos. (Orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004, p. 13-67.
MELO, Cristina Teixeira Vieira de. A análise do discurso em contraponto à noção de acessibilidade ilimitada da Internet. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos. (Orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004, p. 135-143.
PAIVA, Vera Lúcia Menezes de Oliveira e. E-mail: um novo gênero textual. In: MARCUSCHI, Luiz Antônio; XAVIER, Antônio Carlos. (Orgs.). Hipertexto e gêneros digitais: novas formas de sentido. Rio de Janeiro: Lucerna, 2004, p. 68-90.
PAULIUKONIS, Maria Aparecida Lino; GAVAZZI, Sigrid. Texto e discurso: mídia, literatura e ensino. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003.


[1] Chamamos de sotaque porque o “chat” segue características da oralidade, tais como: a velocidade na transmissão e a imitação de um diálogo, só que utilizando um teclado e não a voz.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Os gêneros emergentes na mídia e o ensino



Mais do que em qualquer outra época, hoje proliferam gêneros novos dentro de novas tecnologias, particularmente na mídia eletrônica (digital). Diante disto, vale indagar-se se a escola deverá amanhã ocupar-se de como se produz um e-mail e outros gêneros do discurso do mundo virtual ou isso não é sua atribuição? Pode a escola tranqüilamente continuar ensinando como se escreve cartas e como se produz um debate face a face? Será que o modelo de interação face a face proposto por Sacks, Schegloff e Schiffrin nos anos 70 já deve ser revisto em pontos

essenciais, considerando-se a presença nos bate-papos?

Em princípio, é possível concordar com Tom Erickson (1997), para quem o estudo da comunicação virtual na perspectiva dos gêneros é particularmente interessante porque “a interação on-line tem o potencial de acelerar enormemente a evolução dos gêneros”, tendo em vista a natureza do meio tecnológico e os modos como se desenvolve. Esse meio propicia, ao contrário do que se imaginava, uma “interação altamente participativa”, o que obrigará a rever algumas noções já consagradas.

Se tomarmos o gênero enquanto texto concreto, situado histórica e socialmente, culturalmente sensível, recorrente, “relativamente estável” do ponto de vista estilístico e composicional, servindo como instrumento comunicativo com propósitos específicos como forma de ação social, é fácil perceber que um novo meio tecnológico que interfere em boa parte dessas condições, deve também interferir na natureza do gênero produzido. Tomemos o gênero mais praticado no nosso dia-a-dia, a conversação espontânea realizada face a face, e pensemos na descrição oferecida por Sacks, Schegloff e Schiffrin (1974).

Tentemos agora aplicar essa descrição a um bate-papo on-line. Que aspectos da relação face a face transferem-se para o novo meio? Qual a interferência do anonimato mantido num apelido (nickname)? O que muda quando a relação interpessoal passa a ser uma relação hiperpessoal, como no caso de um bate-papo em aberto? Não é propriamente a estrutura que se reorganiza, mas o quadro que forma a noção do gênero. Em suma: muda o gênero.

Não obstante essas ponderações, é bom ter cautela quando se afirma que algo de novo está acontecendo em relação à linguagem, pois faz muitíssimo tempo que o ser humano fala e bastante tempo que escreve. A idéia de que a cada nova tecnologia, como lembra David Crystal (2001:2), o mundo todo se renova por completo, é uma ilusão que logo desaparece. Novidades podem até acontecer, mas com o tempo percebe-se que não era tão novo aquilo que foi tido como tal.

E, particularmente suas influências não foram tão devastadoras ou tão espetaculares como se imaginava. Daí a pergunta: quanto de novo vem por aí com a Internet nos nossos vídeos?

Justamente por não encontrar grandes respostas para essa questão, Crystal escreveu seu livro “Linguagem e a Internet”, na tentativa de descobrir algo sobre “o papel da linguagem na Internet e o efeito da Internet na linguagem” (2001:viii). Quanto a isso, para o autor, sumariamente, três aspectos podem ser frisados:

(1) do ponto de vista da linguagem, temos uma pontuação minimalista, uma ortografia um tanto bizarra, abundância de abreviaturas nada convencionais, estruturas frasais pouco ortodoxas e uma escrita semi-alfabética;

(2) do ponto de vista da natureza enunciativa dessa linguagem, integram-se mais semioses do que usualmente, tendo em vista a natureza do meio e

(3) do ponto de vista dos gêneros realizados, a internet transmuta de maneira bastante radical gêneros existentes e desenvolve alguns realmente novos. Contudo, um fato é inconteste: a Internet e todos os gêneros a ela ligados são eventos textuais fundamentalmente baseados na escrita. Na Internet a escrita continua essencial.

Tudo indica, ainda segundo Crystal (2001), que a Internet seja menos uma revolução tecnológica do que uma revolução dos modos sociais de interagir lingüisticamente. Pode-se dizer que o discurso eletrônico ainda se acha em estado meio selvagem e indomado sob o ponto de vista lingüístico e organizacional. O próprio estado de anonimato dos bate-papos favorece o lado instintivo desde a escolha do apelido até as decisões lingüísticas, estilísticas e liberalidades quanto ao conteúdo. Trata-se de uma estética em busca de seu cânone, se é que isso ainda pode acontecer.

De uma maneira geral, a Comunicação Mediada por Computador abrange todos os formatos de comunicação e os respectivos gêneros que emergem nesse contexto. Futuramente, é provável que a expressão Internet assuma a carga semântica e pragmática do sistema completo, já que se trata da rede mundial de comunicação ininterruptamente interconectada a todos os computadores ligados a ela. Analisa de modo particular, um conjunto específico de novos gêneros textuais, desenvolvidos no contexto da hoje denominada mídia virtual, identificada centralmente na tecnologia computacional a partir das três últimas décadas do século XX. Daí surge um novo tipo de comunicação conhecido como Comunicação Mediada por Computador (CMC) ou comunicação eletrônica, que desenvolve uma espécie de “discurso eletrônico”

A relevância de se tratar esses gêneros textuais reside em pelo menos quatro aspectos:

(1) são gêneros em franco desenvolvimento e fase de fixação com uso cada vez mais generalizado;

(2) apresentam peculiaridades formais próprias, não obstante terem contrapartes em gêneros prévios;

(3) oferecem a possibilidade de se rever alguns conceitos tradicionais a respeito da textualidade e (4) mudam sensivelmente nossa relação com a oralidade e a escrita, o que nos obriga a repensá-la.

Para melhor compreensão do problema e para que a análise tenha mais autonomia, introduzimos, inicialmente, alguns conceitos com elementos teóricos e metodológicos. O tema em si – gêneros textuais - não é novo e vem sendo tratado desde os anos 60 quando surgiu a Lingüística de Texto e a Análise Conversacional, mas o enfoque dado aqui com atenção particular aos gêneros textuais no domínio da mídia virtual é mais recente e carece ainda de trabalhos, embora já apareçam estudos específicos [1] sobre esse novo modo discursivo também denominado “discurso eletrônico”. Entre os gêneros mais conhecidos e que vêm sendo estudados podemos situar pelo menos estes (com designações tentativas):
e-mail [2] - correio eletrônico com formas de produção típicas e já padronizadas. Inicialmente um serviço (electronic mail), resultou num gênero (surgiu em 1972/3 nos EUA e esta hoje entre os mais praticados na escrita).

chat em aberto (bate-papo virtual em aberto - room-chat) [3] - inúmeras pessoas interagindo simultaneamente em relação síncrona e no mesmo ambiente. Surgiu como IRC na Finlândia em 1988.

chat reservado (bate-papo virtual reservado) - variante dos room-chats do tipo (2) mas com as falas pessoais acessíveis apenas aos dois interlocutores mutuamente selecionados, embora possam continuar vendo todos os demais em aberto.

chat agendado (bate-papo agendado - ICQ) - variante de (3), mas com a característica de ter sido agendado e oferecer a possibilidade demais recursos tecnológicos na recepção e envio de arquivos.

chat privado (bate-papo virtual em salas privadas) - são os bate-papos em sala privada com apenas os dois parceiros de diálogo presentes; uma espécie de variação dos bate-papos de tipo (2).
entrevista com convidado - forma de diálogo com perguntas e respostas num esquema diferente dos dois anteriores.

e-mail educacional (aula virtual) - interações com número limitado de alunos tanto no formato de e-mail ou de arquivos hipertextuais com tema definido em contatos geralmente assíncronos.
aula chat (chat educacional) - interações síncronas no estilo dos chats com finalidade educacional, geralmente para tirar dúvidas, dar atendimento pessoal ou em grupo e com temas prévios.

vídeo-conferência interativa - realizada por computador e similar a uma interação face a face; uso da voz pela rede de telefonia ou a cabo.

lista de discussão (mailing list)- grupo de pessoas com interesses específicos, que se comunicam em geral de forma assíncrona, mediada por um responsável que organiza as mensagens e eventualmente faz triagens.

endereço eletrônico (o endereço eletrônico, seja o pessoal para e-mail ou para a home-page, tem hoje características típicas e é um gênero).

weblog (blogs; diários virtuais) – são os diários pessoais na rede; uma escrita autobiográfica com observações diárias ou não, agendas, anotações, em geral muito praticados pelos adolescentes na forma de diários participativos.

Entre os mais praticados estão os e-mails, os chats em todas as modalidades, listas de discussão e weblogs (diários). Hoje começam a se popularizar também as aulas chat e por e-mail no ensino à distância. Em todos esses gêneros a comunicação se dá pela linguagem escrita. Como veremos, esta escrita tende a uma certa informalidade, menor monitoração e cobrança pela fluidez do meio e pela rapidez do tempo.

Em certos casos, esses gêneros emergentes parecem projeções ou ”transmutações” de outros como suas contrapartes prévias, o que sugere a pergunta de se os designers de softwares seguiram padrões pré-existentes como base para moldagem de seus programas. Como os novos gêneros só são possíveis dentro de determinados programas, parece que a resposta deve ser sim. [4] Mas não devemos confundir um programa com um gênero, pois mesmo diante da rigidez de um programa, não há rigidez nas estratégias de realização do gênero como instrumento de ação social. O que se deveria investigar é qual a real novidade das práticas e não a simples estrutura interna ou a natureza da linguagem.

Por exemplo: nos bate-papos virtuais abertos são construídas identidades sociais muito diversas do que nas conversações face a face. Este aspecto não está nos domínios de controle de nenhum engenheiro de software. O engenheiro pode, quando muito, controlar a ferramenta conceitual, mas não os usos e, muito menos os usuários. Isto significa que os usos não podem ser controlados em toda sua extensão pelo sistema. Assim ocorre também com as línguas naturais de um modo geral. Embora haja um sistema lingüístico subjacente a cada língua, ele não impede a variação. As variações não são aleatórias e sim sistemáticas, no caso dos usos lingüísticos. Já no caso dos usos de softwares interativos, que fundam usos resultantes em gêneros textuais, as projeções dos engenheiros são ainda mais fracas. A rigidez do programa fica por conta de sua característica formulaica, já que em última análise todos os gêneros produzidos no contexto da mídia virtual têm um sabor de formulários mais ou menos discursivos e não de múltipla escolha.

Aspecto reiteradamente salientado na caracterização dos gêneros emergentes é o intenso uso da escrita, dando-se praticamente o contrário em suas contrapartes nas relações interpessoais não virtuais. Será isso relevante na caracterização do gênero emergente ou é um aspecto que nos leva apenas a repensar a nossa relação com a escrita e com a oralidade, mas não a relação entre ambas? Se nos dedicarmos a uma análise de detalhe dos gêneros emergentes na mídia eletrônica em geral (telefonia, rádio, televisão, Internet), veremos que algumas das idéias a respeito da interação verbal deverão ser revistas.

Por exemplo, a presença física não caracteriza a interação conversacional em si, mas sim determinados gêneros, tais como os que se dão nos encontros face a face. De igual modo, a produção oral não é necessária, mas apenas suficiente para determinar a interação verbal, pois é possível uma interação síncrona, pessoal e direta pela escrita transmitida à distância, o que já era em parte possível pela comunicação pelo telégrafo e pelo código Morse. Mas no caso atual há uma série de novidades que não apenas simulam, mas realizam efetivamente a interação.

Todos os gêneros aqui tratados dizem respeito a interações entre indivíduos reais, embora suas relações sejam no geral virtuais. Por isso optamos por não tratar do “gênero textual” no contexto do mundo imaginário dos MUDs (Multi-User-Dungeon). Trata-se de um programa de jogos muito conhecido nos anos 70 e que posteriormente redundou em algo que poderia ser chamado de Jogo de Combate ou Luta com Dragões. Como opera numa relação com um mundo imaginário, pareceu não caber neste contexto de análise. No caso dos MUDs temos um tipo de relação irreal, relação com a fantasia e não com seres reais e trata-se de um jogo. Por essa razão, foi aqui excluído. [5]

Diante de tudo isso, é possível indagar-se que tipo de prática social emerge com as novas formas de discurso virtual pela internet. Pode-se falar em letramento digital , como foi inicialmente sugerido? Creio que é cedo para tanto. Mas já se pode dizer que temos novas situações de letramento cultural.

Tomando-se os gêneros apontados acima e seguindo-se a idéia de que eles podem representar um contínuo com base em alguns vetores, tal como já havia sido sugerido para a relação fala-escrita em Marcuschi (1997), é possível, com base na sugestão de Yates (2000:236-236), traçar os dois gráficos abaixo como dois contínuos contrapostos.

O Gráfico 1 mostra o contínuo entre alguns gêneros tradicionais na fala e escrita, tendo como vetores os eixos da comunicação síncrona versus comunicação assíncrona, ou seja, comunicação que se dá no tempo real (caso da comunicação face a face) e a comunicação escrita (em geral defasada no tempo). Além disso, temos os outros dois vetores, a comunicação grupal (de um para muitos, de muitos para um ou de muitos para muitos) e a comunicação bilateral (de um para um).

Os Gráficos 1 e 2 trazem uma relação que tenta eliminar a visão dicotômica e ao mesmo tempo mostra que há uma certa diferença entre o ambiente sonoro / impresso e o meio digital.

GRÁFICO 1: O CONTÍNUO DE GÊNEROS NA COMUNICAÇÃO TRADICIONAL IMPRESSA E FALADA
Comunicação Assíncrona
Interação um a um
Interação em grupo
Cartas impressas
Memorandos
Conferências
Interação face a face
Comunicação
Síncrona Fonte: Simeon J. YATES (2000) P. 236

O Gráfico 1 representa o contínuo entre os gêneros de uma certa escrita (cartas informais) até a fala espontânea nas conversações dialógicas. Há um movimento do relativamente formal, pois as cartas podem receber vários estilos quanto a esse aspecto, até o bastante informal. E igualmente do mais distanciado (comunicação assíncrona) até a comunicação em tempo real a face a face. Por outro lado, pode-se ir desde a comunicação em grupo até a bilateral. Quanto a este aspecto, note-se que uma carta pode ter várias formas de ser (desde uma carta pessoal de um para um até uma carta circular de um para muitos .

O Gráfico 2 traz os mesmos vetores acima, mas desta vez aplicando-se à comunicação digital. Neste caso, o que se observa é que os e-mails são uma comunicação de fato assíncrona, mas podem ser tanto grupal como individual, tendo uma preferência por sua realização inter-individual. Já a vídeo-conferência distingue-se quanto a isso. Por outro lado, o uso da rede (WWW) em todas as suas modalidades e gêneros abrigados, está num entrecruzamento que permite enorme variedade de realizações em termos de formalidade, informalidade, relações comunicativas e produção síncrona ou não. Mas os bate-papos virtuais ocupam a base que em certo sentido corresponde à situação da comunicação face a face, com as diversas possibilidades apontadas em relação a serem comunicações grupais ou inter-individuais.

GRÁFICO 2: O CONTÍNUO DE GÊNEROS NA COMUNICAÇÃO DIGITAL MEDIADA POR COMPUTADOR

Assíncronos
Vídeo-conferência
E-mail
ICQ/ IRC/ MUD/ MOO (chats em geral)
Uso geral da rede
Interação
multilateral
Interação
bilateral
Blogs Síncronos Fonte: Simeon J. YATES (2000) P. 237

A distribuição dos gêneros por este contínuo poderia ser feita num quadro multidimensional tomando os parâmetros trazidos no quadro acima e considerando os onze gêneros tratados. Veríamos que há uma ordem muito clara entre eles e sua distribuição se dá de forma não aleatória e sua produção obedece a critérios bastante rigorosos. Gaston Hilgert (2000) já mostrava esta questão com muita precisão ao identificar “o contínuo em que se distribuem os gêneros de textos escritos” (p. 52) correlacionando-os dentro do ambiente digital. Observação interessante no contexto do discurso virtual é a construção das identidades sociais numa espécie de contínuo. Podemos dizer que ali se dão interações entre indivíduos no seguinte leque geral, considerando apenas a natureza das relações entre os participantes e os gêneros aqui vistos.

PARTICIPAÇÃO INTERATIVA ENTRE INDIVÍDUOS

conhecidos desconhecidos anônimos irreais
-e-mail
-bate-papos agendado ICQ -listas de discussão -bate-papos abertos -MUDs
-bate-papos educacionais -bate-papos abertos -bate-papos em salas
-aulas virtuais -bate-papos reservados privadas
-vídeo-conferência -endereço eletrônico
-endereço eletrônico -e-mails
-listas de discussão -entrevistas
-entrevistas

Neste momento, deveria ser feita aqui uma observação sobre os gêneros textuais virtuais que não forma mencionados nesta listagem, tais como os blogs, um tipo de diário eletrônico de adolescentes, não raro escrito em duplas ou em n-tuplos de participantes que colaboram para construir um texto sempre em evolução.

A questão dos gêneros e o ensino de língua

Diante da multiplicidade de gêneros existentes e diante da necessidade de escolha, pergunta-se: será que existe algum gênero ideal para tratamento em sala de aula? Ou será que existem gêneros que são mais importantes que outros? Esta questão será enfocada no momento em que nos dedicamos a analisar e sugerir seqüências didáticas, mas desde logo deve ficar claro que não há resposta consensual sobre a questão. Os próprios PCN têm grande dificuldade quando chegam a este ponto e parece que há gêneros mais adequados para a produção e outros mais adequados para a leitura, pois parece que em certos casos somos confrontados apenas com um consumo receptivo e em outros casos temos que produzir os textos. Assim, um bilhete, uma carta pessoal e uma listagem são importantes para todos os cidadãos, mas uma notícia de jornal, uma reportagem e um editorial são gêneros menos praticados pelos indivíduos, mas lidos por todos.

Questões deste tipo devem ser por nós enfrentadas na hora de decidir o trabalho efetivo e nos voltaremos a elas adiante. Mas vejamos aqui algumas características de alguns gêneros e como eles se organizam. Tentemos aplicar alguns dos princípios básicos desenvolvidos até este momento considerando estes gêneros. Trata-se de um breve exercício:

gêneros
Domínios discursivos
Função , aspectos formais, tipos envolvidos
Carta pessoal
Editorial de jornal
Resumo de conferência
Piada
Romance
Conversação espontânea
Aula expositiva
Tese de doutorado
Sermão
Ordem do dia
Bula de remédio
Receita culinária

A investigação até aqui trazida é de interesse aos que trabalham e militam na área do ensino de língua de um modo geral, seja de língua materna ou de segunda língua / língua estrangeira. Também deve ser um indicador de quão redutora está sendo a visão que os recentíssimos Parâmetros Curriculares Nacionais, lançados pelo MEC para o ensino fundamental e médio no que diz respeito à diversidade de produção textual. [6] Essa redução ou, mais especificamente, essa pobreza se fazia lamentavelmente presente nos manuais de ensino de língua tradicionais e talvez agora se torne possível dar um passo à frente.

Uma análise dos manuais de ensino de língua portuguesa mostra que há uma relativa variedade de gêneros textuais presentes nessas obras. Contudo, uma observação mais atenta e qualificada revela que a essa variedade não corresponde uma realidade analítica. Pois os gêneros que aparecem nas seções centrais e básicas, analisados de maneira aprofundada são sempre os mesmos. Os demais gêneros figuram apenas para “enfeite” e até para distração dos alunos. São poucos os casos de tratamento dos gêneros de maneira sistemática. Lentamente, surgem novas perspectivas e novas abordagens que incluem até mesmo aspectos da oralidade. Mas ainda não se tratam de modo sistemático os gêneros orais em geral. Apenas alguns, de modo particular os mais formais, são lembrados em suas características básicas.

Não é de se supor no entanto que os alunos aprendam naturalmente a produzir os diversos gêneros escritos de uso diário. Nem é comum que se aprendam naturalmente os gêneros orais mais formais, como bem observam Dolz & Schneuwly (1998). Por outro lado, é de se indagar se há gêneros textuais ideais para o ensino de língua. Tudo indica que a resposta seja não. Mas é provável que se possam identificar gêneros com dificuldades progressivas, do nível menos formal ao mais formal, do mais privado ao mais público e assim por diante.

Deve ter ficado claro que há muito mais gêneros na escrita do que na fala, o que é de certo modo surpreendente, mas explicável pela diversidade de ações lingüísticas que praticamos no dia a dia na modalidade escrita. As civilizações em que a escrita tem um papel central nas tarefas do dia-a-dia, mormente no comércio, indústria e produção do conhecimento, tendem a diversificar de maneira acentuada as formas textuais utilizadas. Esta tendência torna de algum modo difícil a vida do cidadão comum que já não consegue dominar com facilidade essa verdadeira selva textual. Por isso é importante que nos dediquemos a entender melhor essa questão.

Ao lado do problema da diversidade textual, há ainda a visão hoje comumente aceita e tão claramente defendida por Bakhtin (1979) que aponta os gêneros textuais como esquemas de compreensão e facilitação da ação comunicativa interpessoal. Essa estabilização de formas textuais repercute não só no processo de compreensão, mas na própria estabilização de formas sociais de interação e raciocínio.

Assim, em última análise, a distribuição da produção discursiva em gêneros tem como correlato a própria organização da sociedade, o que nos faz pensar no estudo sócio-histórico dos gêneros textuais como uma das maneiras de entender o próprio funcionamento social da língua. Isto nos remete ao núcleo da perspectiva teórica dos estudos lingüísticos sobre o texto e do texto aqui empreendidos, ou seja, a visão sócio-interacionista.

Educação a Distância como ferramenta de Dependência e Reforço no Ensino Superior do CEFET Campos: uma experiência em pauta.





Maio/2008
Maria Lúcia Moreira Gomes:Centro Federal de Educação Tecnológica de Campos mgomes@cefetcampos.br

Nelma Vilaça Paes Barreto: Centro Federal de Educação Tecnológica de Campos -


Jonas Defante Terra: Centro Federal de Educação Tecnológica de Campos –
jonasdterrayes@yahoo.com.br



Categoria: Métodos e Tecnologias Setor Educacional: Educação Universitária Natureza do trabalho: Relatório de Pesquisa Classe: Experiência inovadora



RESUMO

Este artigo aborda a concepção de um projeto de EAD que envolveu estratégias diversificadas como participação efetiva de uma equipe multidisciplinar e a utilização de um ambiente virtual de aprendizagem colaborativa através da plataforma e-proinfo/MEC tendo como proposta a oferta de Curso de Dependência e Reforço ao ensino presencial nas disciplinas de Matemática Básica e Cálculo Diferencial para os alunos dos Cursos Superiores de Tecnologia do CEFET Campos. Este projeto piloto de EaD implementou uma metodologia inovadora, com base na proposta de questões e problemas, enriquecidos com a construção de objetos de aprendizagem (OAs).

Palavras-chave: educação a distância; internet; dependência e reforço; ambiente colaborativo de aprendizagem.

1- Um Pequeno Histórico da Educação a Distância



O momento em que vivemos é considerado por muitos autores como a quarta geração de EAD no que diz respeito à sua evolução histórica.

Isto nos traz, a princípio, um grande questionamento, já que o que temos como referencial de EAD é o momento atual, que coincide com as Novas Tecnologias da Informação e Comunicação
(NTICs), tendo como principal ferramenta o computador ligado à grande rede mundial.
Neste ponto, faz-se necessário esclarecimento a respeito das gerações de que falamos acima e por que não podemos considerar a era atual como aquela que lança a EAD como um modelo de educação.

Alguns estudiosos tais como Moore e Kearsley (1996) identificam como primeira geração de EAD, as Epístolas de São Paulo Hieros, quando informação e conhecimento passam a ser levados a lugares distantes, assumindo assim uma nova dimensão de circulação e mobilidade. Essa passagem da oralidade à escrita teve como principal responsável a invenção da imprensa, em 1456, por Johannes Gutenberg (Beloni, 1994).

Estava instituído um modelo que possibilitava o que foi chamado de ensino por correspondência, com precária ou nula interatividade entre as partes. Este modelo salvaguardou, durante muitos anos, aqueles que, por questões geográficas ou qualquer outro motivo não tinham acesso a nenhuma forma de conhecimento.

A segunda geração é marcada pelo surgimento, em 1969, da Open University. Os cursos a distância deixam de se basear exclusivamente na remessa de materiais por correspondência e passam a explorar outros caminhos para acessar e estimular o aprendiz. A partir desse modelo, a oferta de cursos a distância é enriquecida com: reuniões, encontros e sessões periódicas de tutorias; emissões radiofônicas; remessa de leituras específicas em material impresso complementar.

Já a terceira geração EAD é fortemente caracterizada pelas NTICs e pelos novos paradigmas educacionais. Isto data de 1993, e a educação passa a contemplar a inserção daquelas tecnologias
nos ambientes de ensino-aprendizagem, a fim de possibilitar ao indivíduo uma visão global do mundo. Inovação e descoberta são valorizadas como etapas fundamentais no processo de
aprendizagem transformando a escola no templo do “aprender a aprender”, ou seja, é a busca do próprio aluno, de acordo com suas necessidades de alternativas que facilitem seu aprender.

À medida que as tecnologias se aprimoram e permitem que o mundo todo se conecte a uma grande rede, onde possam interagir diferentes tipos de pessoas, de sociedades e culturas e raças, a expansão da EAD atinge seu ponto alto e constata-se a impossibilidade de segurar esta
imensa engrenagem que impulsiona o processo de informação e conhecimento. Fica caracterizada assim a quarta geração de EAD.
Isto nos permite inferir que a evolução da EAD terá tantos avanços quantos forem estes em termos de tecnologia, de forma a atender as demandas da contemporaneidade. Como afirma Beloni (1999, pág. 4):

“a EAD tende doravante a se tornar cada vez mais um elemento regular dos sistemas educativos, necessários não apenas para atender a demandas e/ou grupos específicos, mas assumindo funções de crescente importância, especialmente no ensino pós-secundário, ou seja, na educação da população adulta, o que inclui o ensino superior regular e toda a grande e variada demanda de formação contínua gerada pela obsolescência acelerada da tecnologia e do conhecimento".


Podemos perceber pelas palavras da autora que existe uma sutil alusão ao público alvo que deve partilhar o conhecimento e a conseqüente aprendizagem neste modelo de educação: a geração
adulta. E este assunto será abordado mais à frente neste mesmo artigo.

2 - De que educação estamos falando?

Um dos grandes riscos que se corre ao enfatizar o modelo de aprendizagem a distância é cometer o erro de bipartirmos a educação, em seu âmbito maior, em um outro tipo de educação, com outras leis e diretrizes, com outros objetivos e /ou formas de avaliar. O que precisamos manter como verdade é que este novo modelo não é nada mais nada menos que um outro instrumento de se fazer educação, mais democratizado, mais amplo e com parâmetros de interatividade, que, embora suscitem acomodação e uma certa aceitação, mantém o intento da aprendizagem no bojo de seu processo.

Muitas foram e ainda continuam sendo as dificuldades e os preconceitos a serem enfrentados, principalmente dos órgãos que legitimam o status da EAD, e que, somente após tantas décadas, legalizam e, mais que isso, estimulam seu crescimento, dirimindo os medos que atingiam a todos que queriam, ou melhor, necessitavam desta forma de democratização do ensino, tão sofrido neste país de educação sucateada.

Neste processo de minimização das dificuldades, temos ainda um outro fator a ser repensado ou temido: é a EAD ser transformada em uma simples forma de se levar a educação a todos, sem critérios ou preocupação com a qualidade, fato tão normal num país de pouco investimento em educação. Fazer do ensino a distância um programa como tantos outros, que mudam a cada troca de governo, apenas com o intuito de marcar presença, seria cair no descrédito diante das esperanças dos brasileiros.

Para estes não importa o número de pessoas que chega à educação, importa-nos sim, a qualidade que tem esta educação e o resultado que este modelo tem trazido para o crescimento do país.
Pela sua característica de trazer em seu bojo a necessidade de uma aprendizagem autônoma, não se pode lançar aleatoriamente este modelo para qualquer clientela em qualquer idade. O que garante autonomia de aprendizagem é a maturidade inerente aos jovens (nem todos) e adultos e não a crianças que muito ainda têm que ser monitoradas para alcançar o patamar da autonomia e da responsabilidade requerida pela educação a distância. Para aprender de forma tão independente, é preciso um amadurecimento que as crianças ainda não possuem, não apenas pela idade, mas por sua maturação psicológica.


A respeito desse fato, Belloni (1999:31) adverte que "o desenvolvimento de pesquisas sobre metodologias de ensino mais ativas para a educação de adultos, centradas no estudante e, tendo como princípio sua maior autonomia, passa a ser condição sine qua non para o sucesso de qualquer experiência de EAD (...)".

Muitas são as definições que se aplicam à EAD e faz-se importante ressaltar duas delas que nos parecem mais se aproximar do que consideramos ser uma conceituação mais completa desse modelo de educação: Moore (1996) vê a educação a distância relacionada àqueles métodos educacionais nos quais, devido à separação física entre alunos e professores, as fases interativas são conduzidas por outros meios que não a troca direta, interpessoal.


Outro conceito que acaba por completar o anterior é o de Holmberg (1991), segundo o qual a Educação a Distância é essencialmente auto-estudo. Esclarece, porém, que o estudante não está só; ao contrário, ele se beneficia da interação com os seus tutores e pares. Dessa forma, um certo tipo de conversação com trânsito em dois sentidos — mensagem escrita e uso do telefone, por exemplo — ocorre entre o estudante, os tutores e os outros membros do curso. Realiza-se, portanto, uma conversação indireta a respeito da matéria de estudo, estimulando os estudantes a discutirem os conteúdos entre eles mesmos, caracterizando, assim, a denominada "conversação didática guiada".

Diante desses conceitos e das experiências que se vivencia em EAD, depreende-se que o aluno acaba por desenvolver sua capacidade de adquirir conhecimento de forma individualizada e
independente e, dessa forma, construir uma aprendizagem significativa, conforme aborda Ausubel em sua Teoria da Aprendizagem Cognitiva (1978). Afirma ele que a aprendizagem
significativa só ocorre quando o indivíduo associa o conhecimento adquirido anteriormente (ponto de ancoragem) à assimilação de novos dados. Esse processo de associação de informações
interrelacionadas denomina-se Aprendizagem Significativa.

Não fica difícil, portanto, inferir que, na modalidade EAD, essa aprendizagem abordada por Ausubel também ocorre, porque não é a presença de um professor que fará o aluno chegar a um nível de aprendizagem significativa, mas o conhecimento já armazenado em sua memória, ou seja, "o aprendizado significativo acontece quando uma informação nova é adquirida mediante um esforço deliberado por parte do aprendiz em ligar a informação nova com conceitos ou proposições relevantes preexistentes em sua estrutura cognitiva.” (Ausubel et al., 1978, p. 159)"

3 - Características da EAD

Num repassar pelas correntes pedagógicas ao longo de décadas, da Escola tradicional à Crítico-Social dos conteúdos, vemos, na condição de alunos, e, posteriormente, de professores, um vai-e- vem contínuo de regras e pedagogias que, somadas, em nada ou muito pouco acrescentaram ao quadro caótico que tem perpetuado na educação brasileira. O ir e vir de ministros e secretários, numa tentativa de marcar sua gestão com mudanças inovadoras, só têm feito deixar as escolas, com seus diretores, alunos e professores, perdidos nesta “babel educacional”.

Diante deste cenário, em meio a modismos e ânsia por mudanças, surgem as novas tecnologias que obrigam as escolas a mudar seu perfil, adequando-se a uma sociedade virtual, de conhecimento, que imprime uma nova visão de educar e aprender, centrada no sujeito coletivo. Esta revolução midiática abre ao ensino vias inexploradas até porque, inéditas. As tecnologias ampliaram sensivelmente as possibilidades de armazenamento, busca e transmissão da informação, colocando à disposição do estudante um manancial inesgotável de informações.

Um fator aludido em todo e qualquer estudo sobre EAD é a distância. Ao mesmo tempo em que se mostra como inovador, o que já provamos anteriormente não ser, suscita questionamentos
vários, que vão desde a total impossibilidade de aprendizagem sem a presença do professor, até a importância excessiva atribuída à interatividade, aí incluídos a afetividade, elemento
imprescindível e considerado nulo neste processo, o desestímulo e futura desistência dos estudos.

É fato que se teria muito a retrucar diante dessas alegações: o professor, asseguradamente, nunca foi considerado o único e total responsável pela aprendizagem, haja vista as inúmeras reprovações observadas tanto em escolas públicas quanto privadas, apesar do comprometimento e doação dos mestres; interatividade não está necessariamente vinculada à presença de um professor, haja vista os inúmeros os casos em que a interatividade professor-aluno é nula. Além disso, no modelo EAD, o número de instrumentos interativos que facilitam a aprendizagem é o satisfatório, quando se trata de um curso bem estruturado. Utilizando-se dos diversos recursos, permite-se multiplicar as oportunidades educacionais de qualidade, garantidas por diferentes meios tecnológicos, o que resulta em maior eficiência para o processo de aprendizado.

Uma outra característica freqüentemente considerada fundamental em qualquer situação de ensino-aprendizagem é a mediação pedagógica. Na EAD, tal mediação pode se dar por meio
dos textos e demais recursos pedagógicos especialmente elaborados para atender a essa finalidade e também pela ação de um tutor. A característica básica desse processo é a linguagem conversacional, pré-requisito indispensável para que ocorram trocas pedagógicas e, por conseguinte, construção de conhecimentos. A mediação pedagógica traduz a concepção
educacional e de aprendizagem concernentes a um determinado curso ou programa de EAD.


Diante das possibilidades que as tecnologias comunicacionais e informacionais apontam, concluímos que muitas são as variáveis pedagógicas que podem interferir no sucesso de um curso.

De uma forma geral, podemos citar como características intrínsecas à EAD os seguintes
elementos: os recursos pedagógicos; o apoio tutorial (professor e/ou tutor); a mediação pedagógica e a clientela, que possui a importante missão de interagir, aprendendo e ensinando deforma cooperativa, usando ferramentas tais como: fórum de discussão, chats, e-mails, de
forma síncrona ou não, no tempo que lhes é conveniente.


4 - O reforço positivo na tutoria

Em se falando de educação, seja ela presencial ou a distância, nos reportamos ao que disse Paulo Freire:
“ Se a educação é dialógica, é óbvio que o papel do professor, em qualquer situação, é importante. Na medida em que ele dialoga com os educandos, deve chamar a atenção destes para um ou outro ponto menos claro, mais ingênuo, problematizando-os sempre. O papel do educador não é o de «encher» o educando com ‘conhecimento’, de ordem técnica ou não, mas sim, o de proporcionar, através da relação dialógica educador- educando, a organização do pensamento correto de ambos.” (Freire, 1992).

É justamente o papel do educador que medeia a relação do aluno com a informação a ser transformada em conhecimento, que consideramos de primordial importância ressaltar neste momento.

Da mesma forma que se requer em outras atividades profissionais, cabe ao professor-tutor ser profissional e ético, irrepreensível, primando pelo exemplo moral e ético que acaba por ser a forma mais poderosa de sedução a ser exercida. Ele constitui-se como “facilitador e mediador da aprendizagem, motivador, orientador e avaliador” (Cechinel, 2000, p. 14), O tutor deverá favorecer uma ampliação do espaço de cada um dos membros do grupo através da observação e avaliação de diferentes idéias e opiniões, apontando alternativas de solução para as questões apresentadas, indicando os recursos disponíveis na instituição e estimulando que o próprio grupo se mobilize para as necessidades detectadas.

Uma outra característica capital nas ações de um tutor é a capacidade de se colocar no lugar do outro, a empatia, e assim, inferir as dificuldades não só individuais, mas também aquelas
inerentes a todo processo, que se apresenta novo para um grupo acostumado com paradigmas clássicos de aquisição de conhecimento.

Uma das grandes funções do tutor é a capacidade de captar a atenção dos alunos, demonstrando domínio das ferramentas de trabalho que irá utilizar durante o curso. É de grande sagacidade
que o tutor inquiete o aprendiz, usando da capacidade de demonstrar os atalhos, o manejo eficaz das ferramentas que estão à disposição para o exercício da tutoria. Para tanto é
imprescindível gostar do que faz e fazê-lo com amor, demonstrando interesse pela melhoria do processo ensino- aprendizagem e abertura para o contato com o aluno, principalmente quando solicitado.

O tutor deve, dentro das suas limitações temporais, estar pronto para ouvir, apoiar e orientar o aprendiz quando este solicitar. Sem essa disponibilidade, o fio se rompe, tornando-se difícil a retomada da relação pedagógica em níveis satisfatórios. A falta de confiança no tutor, o desamparo sofrido pelo aprendiz num determinado momento da sua jornada, em geral, leva à evasão irreversível e ao desapontamento indesejável para os envolvidos
no sistema educacional.

No papel de mediador entre o saber e o aprendiz, o tutor deve ter a perfeita consciência de que não é ele o detentor exclusivo do conhecimento, mas antes de tudo, é uma ponte para a
fluência dos saberes em construção.Torna-se imperioso a todos os envolvidos na tutoria em Educação a Distância desfazer velhos paradigmas e abraçar a missão de educar sem receios de se aproximar demais, de estreitar os laços de afeto e, sobretudo sem o demasiado temor de exercer, por amor, a sutil arte de seduzir pedagogicamente os que anseiam pela aprendizagem libertadora.

5 - Um Projeto Inovador: os Estudos de Dependência e Reforço na Modalidade a Distância em Curso Superior do CEFET Campos.

O projeto de que falamos teve início no ano de 2006, 1º semestre, e derivou da preocupação vivenciada durante alguns anos por um professor da disciplina de Matemática Básica e
Cálculo Diferencial e Integral nos Cursos Superiores de Tecnologia do CEFET Campos.

Ao ingressarem nos cursos, os alunos enfrentam uma dificuldade extrema ao lidar com esses conteúdos, isso ocasionado pela exígua base que lhes é fornecida no decorrer do ensino fundamental e médio, decorrente de uma realidade da educação brasileira que chega próximo ao caos, principalmente no que diz respeito ao ensino público.

Além desses, outros fatores corroboram essa situação como condições sócio-econômicas que obrigam o trabalho diário, levando-os à falta de tempo para realizar seus estudos a contento,
ou o longo afastamento dos bancos escolares.

Para um maior esclarecimento que justifica a criação do projeto, faz-se necessário esclarecer que a disciplina Matemática Básica não é considerada pré-requisito da disciplina de Cálculo Diferencial I e, esta, por sua vez, não constitui pré -requisito para Cálculo Diferencial II em alguns cursos. Os alunos matriculados no diurno possuem a possibilidade de cumprir também a dependência à noite. O mesmo não acontece com alunos da noite por trabalharem, em sua maioria, durante o dia. Diante desse cenário, o aluno termina por cumprir apenas as etapas de provas, mantendo, via de regra a reprovação, já que lhe faltam estímulo e orientação para seus estudos.

Paralelamente, um outro cenário se apresenta nestes cursos. Pelas dificuldades enfrentadas e citadas acima, os ingressos no primeiro período apresentam deficiência de conteúdos e uma das formas de minimizar o problema é a oferta, principalmente para o aluno noturno, de aprendizagem paralela ao estudo presencial, o que aqui, neste trabalho, se configura como
reforço.

Como forma de atacar as questões apresentadas, aliando a isto a inclusão digital, foi proposto o projeto de dependência e reforço nas disciplinas Matemática Básica e Cálculo Diferencial e
Integral para o curso de Tecnologia do CEFET Campos, através de estudo a distância, fazendo uso da plataforma e-Proinfo, que é um Ambiente Colaborativo de Aprendizagem a Distância, baseado em Tecnologia WEB e que foi desenvolvido pela Secretaria de Educação a Distância do Ministério de Educação em parceria com renomadas instituições de ensino.

O que se chama de ambiente de aprendizagem envolve um contexto maior do que o uso de uma simples tecnologia. Ela possibilita a interatividade, ou seja, o compartilhamento de ações nas quais atuam simultaneamente professores e alunos. Enfim, o chamado ambiente de aprendizagem nada mais é do que o (não) lugar, uma escola sem paredes ou carteiras, mas dotado de recursos considerados essenciais para que a educação se faça:
alunos, conteúdo e tutores em grande interatividade e construção do conhecimento, sem a qual uma educação não se faz.

No CEFET Campos, este projeto busca colaborar com a Instituição como alternativa de oportunizar ao aluno cursar a disciplina, paralelamente ao período letivo em que se encontra, no
caso de dependência e reforço às aulas presenciais daquela disciplina.

6- A Metodologia Desenvolvida.

Dentro do objetivo proposto, alguns recursos de informação e comunicação foram pensados para que o projeto estivesse a contento e alcançasse os objetivos almejados, os quais passamos
a citar:
• Desenvolvimento de material didático em Módulos, com conteúdos para as disciplinas propostas;
• Sites, livros didáticos, disponíveis na Biblioteca da Instituição, e softwares educacionais a serem oferecidos na plataforma E-Proinfo. Elementos esses que possibilitam o apoio teórico e prático para o aluno;
• Manual do aluno, cujo objetivo é ajudar, passo-a-passo, o aluno em sua navegação pela plataforma, além de uma orientação mais abrangente para a gerência de outras ações
necessárias à sua participação como aluno on-line;

Pela característica atípica para um ensino que não se configura nos moldes tradicionais, sem horários rígidos e sem salas de aula presenciais, algumas orientações foram apresentadas para o bom desenvolvimento do curso como a proposta de uma carga horária mínima de quatro horas semanais de dedicação ao curso, ou às disciplinas. Este tempo permitiria a diversidade de enfoques sobre as situações atuais relacionadas à disciplina oferecida, de forma a desencadear a análise e estudo da estrutura curricular formal, além de outras questões que
envolvessem o conteúdo dado.


7 - O Curso Piloto em Pauta

Como o objeto do curso eram as disciplinas de Matemática e Cálculo, e estas fazem uso de gráficos e símbolos matemáticos, que não se encontram no teclado, o material foi entregue de forma manuscrita. Nesse momento, houve a percepção de que os alunos se mostraram mais receptivos à resolução dos mesmos.

As aulas permaneciam na plataforma, podendo ser acessadas sempre que o aluno quisesse, no período de vigência do curso.
Uma das ferramentas destes ambientes e que, a nosso ver, constitui um instrumento de excelente valor pedagógico, pelo seu grau de interatividade, é o fórum de discussão. Ali o aluno tem a oportunidade de discutir suas dúvidas, levantar problemas, interagir com outros alunos, contando com a participação do professor-orientador e coordenador pedagógico que trabalharão as ações planejadas, enriquecendo com suas colocações e simulando uma sala de aula presencial.

Além desta ferramenta em que o professor atua como mediador, um outro meio de interação, mais individual e particular, utilizado neste curso, é o e-mail, que oportuniza a colaboração e
partilha de saberes, entre aluno e professor, aluno e monitores, que são elementos estimuladores e colaboradores da aprendizagem.

8 - A Realização das Ações


No 1º semestre de 2006, foi colocada em vigência a primeira turma, e tivemos apenas 13 alunos inscritos na dependência, já que isso constituía uma novidade no CEFET Campos. Destes 13
apenas seis (46,2%) permaneceram até o fim do curso, alcançando aprovação na disciplina. O índice de desistência já era esperado pelo grupo coordenador, tendo em vista a resistência que, de um modo geral, acontece, ao se propor algo novo e, principalmente, no que diz respeito ao uso das novas tecnologias. As dúvidas quanto ao saber usar um ambiente diferente da sala de aula
tradicional, em muito deve ter angustiado alguns, apesar das diversas interferências e estímulos do orientador.

O resultado foi para nós, orientadores e coordenadores, considerado uma vitória, pois, a partir daí, tínhamos dado o pontapé inicial para a efetivação de um instrumento de aprendizagem e de um sonho há muito perseguido pela Instituição. A partir do semestre seguinte, ainda em 2006, o ambiente de aprendizagem usado passou a ser a plataforma Moodle, no entanto
apesar dos esforços da Coordenação responsável e direção.

9 - Conclusão


Esta foi uma primeira experiência em EAD no CEFET Campos. Na chamada inicial, a adesão dos alunos ao projeto de curso on-line aconteceu de forma tímida, com poucos inscritos mesmo tendo
havido divulgação e convocação. O percentual dos alunos que atingiu resultado satisfatório para aprovação atingiu o índice de 60%, em Matemática Básica. Já em Cálculo nenhum aluno concluiu o curso nem participou das atividades e avaliações.

As várias etapas de desenvolvimento do projeto, construídas e vivenciadas pela equipe multidisciplinar, possibilitaram uma análise do curso e da plataforma emuso e suas ferramentas. A participação efetiva credenciou o grupo a eleger uma outra plataforma – Moodle que dará suporte para a criação dos novos cursos.

A partir do projeto piloto, iniciativas importantes em EAD foram construídas pelo CEFET Campos para gerar propostas futuras na modalidade a distância. Foi instituído o Núcleo de
Tecnologias Educacionais e Educação a Distância (NTEAD) para atuar como gestor de práticas inovadoras de EAD e constituir-se como espaço de reflexão sobre o impacto das inovações
tecnológicas no campo pedagógico e metodológico.


10 - Bibliografia

AUSUBEL-Novak-Hanesian, Psicologia Educacional, Editora Interamericana, Brasil, 1980.

BELLONI, Maria Luiza. Educação a distância. Autores Associados, Campinas, 1999.
______. "A mundialização da cultura". Revista Sociedade e Estado, nº 1/2. 1994, vol. IX.

CECHINEL, José Carlos. “Manual do Tutor”. Florianópolis: UDESC, 2000.

FREIRE, Paulo. Pedagogia do Oprimido, Editora Paz e Terra, Rio, 1970.

MOORE, M. & KEARSLEY, G. Distance Education – A Systems View. Belmont:Wadsworth, 1996.

KEEGAN, S.D; HOLMBERG B.; MOORE, M,; PETERS, O.;

DOHMEM, G. Distance Education International Perspectives. London: Routllege, 1991